O Brasil realiza neste mês de outubro a décima eleição presidencial direta desde a redemocratização. Para o candidato à reeleição Lula, a disputa funciona como um tira-teima: ele perdeu nas três primeiras tentativas (1989, 1994 e 1998) e venceu nas três seguintes (2002, 2006 e 2022). Ao longo de sua trajetória, também elegeu e reelegeu Dilma Rousseff (2010 e 2014), mas não obteve sucesso ao tentar emplacar Fernando Haddad contra Jair Bolsonaro em 2018. Com mais de quarenta anos de vida pública e prestes a completar 81 anos, o atual presidente já afirmou publicamente que esta representa sua última candidatura, independentemente do resultado nas urnas. O pleito funciona como um divisor de águas que zera o tabuleiro político brasileiro, gerando fortes reflexos, sobretudo, no espectro da esquerda.
Em artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo, a professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, Maria Hermínia Tavares, pontuou que Lula, seu vice Geraldo Alckmin e o ex-governador Ronaldo Caiado — candidato ao Palácio do Planalto pelo PSD — figuram como os últimos nomes de projeção nacional que integraram a Assembleia Constituinte. “Todos os seus contemporâneos já saíram de cena. Esta será, por assim dizer, a última eleição da Nova República”, destacou a docente.
A despedida eleitoral de Lula abre espaço para uma transição geracional. Na esquerda, o movimento viabiliza a ascensão de novas lideranças, algo que historicamente foi contido pelo presidente. Desde o fim do regime militar, Lula atuou como o principal candidato do PT, marcando presença em sete das dez disputas presidenciais. Ficou de fora em 2010 devido à proibição constitucional de três mandatos consecutivos, em 2014 porque Dilma Rousseff reivindicou a reeleição, e em 2018 em decorrência de sua prisão.
Encerrada a campanha atual, a corrida sucessoria tende a se intensificar, movimentando nomes já conhecidos como o próprio Fernando Haddad, o senador Camilo Santana e a deputada Gleisi Hoffmann. Com a saída definitiva de Lula do circuito político, legendas como o PSB projetam distanciar-se da órbita petista, em um recomeço que promete embates internos. O desafio da centro-esquerda, contudo, vai além e esbarra na reprovação majoritária ao atual governo: a necessidade de atualizar propostas e práticas políticas para reconectar-se com a base trabalhadora, visto que pesquisas indicam desgaste do eleitorado com o atual modelo e a perda de apelo de bandeiras tradicionais, como o sonho da carteira assinada.
Enquanto isso, o campo da direita expande sua influência. Mesmo preso, Jair Bolsonaro mantém um capital eleitoral comparável ao de Lula. A escolha de seu filho mais velho, Flávio Bolsonaro, para a disputa presidencial indica que o clã pretende continuar comandando seu grupo político, sem oposições internas evidentes até o momento.
Paradoxalmente, a última campanha de Lula gerou repercussões no campo opositor. Caso Flávio Bolsonaro vença, o governador de São Paulo e afilhado político do capitão, Tarcísio de Freitas, dificilmente disputará o Planalto em 2030 para evitar conflitos com a família Bolsonaro. Por outro lado, uma vitória de Lula favoreceria os planos políticos do governador paulista, cuja base não se sustenta apenas no antipetismo. Nos bastidores, líderes de partidos de direita e do Centrão discutem se devem adotar postura discreta em relação à campanha de Flávio, demonstrando que o encerramento do ciclo lulista também embaralha as estratégias da oposição.
Fonte: https://veja.abril.com.br/politica/ultimo-ato-eleitoral-de-lula-zera-o-jogo-politico/
