Os apagões recorrentes em Cuba refletem um problema histórico agravado por restrições na venda de petróleo impostas pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Diante da produção interna limitada e da forte dependência de importações, a ilha buscou alternativas energéticas ao longo das décadas.
A iniciativa mais ambiciosa surgiu no início da década de 1980, quando Fidel Castro iniciou planos para erguer uma usina nuclear em Juraguá, na província de Cienfuegos, com financiamento e construção da União Soviética. O projeto previa a construção de três unidades, sendo a primeira planejada para suprir 15% da demanda elétrica cubana.
No entanto, a empreitada enfrentou severos obstáculos. Os Estados Unidos manifestaram oposição alegando preocupações de segurança devido à proximidade geográfica, objeções que ganharam força após o desastre nuclear de Chernobyl em 1986, na Ucrânia, embora a Comissão Reguladora Nuclear tenha informado ao Congresso americano naquele ano que o design de Juraguá assemelhava-se mais ao de usinas ocidentais.
O golpe definitivo veio com o colapso da União Soviética em 1989. Três anos depois, a usina foi desativada sem jamais entrar em operação. Francisco Pérez, ex-trabalhador do projeto, relembrou que Fidel Castro reuniu os funcionários para comunicar a necessidade de paralisação das obras. Esforços posteriores de Cuba e da Rússia na década de 1990 para retomar o projeto esbarraram nas dificuldades financeiras e na oposição contínua de Washington. Em 1995, o então porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Nicholas Burns, declarou publicamente que o governo americano mantinha dúvidas sobre a qualidade da construção e a capacidade de operação de Cuba. Anos depois, relatos indicaram que Fidel Castro informou a Rússia sobre o desinteresse em finalizar a usina.
Hoje, a estrutura de concreto abandonada em Juraguá permite a livre circulação de pessoas, assim como a vizinha Nuclear City, construída para abrigar os milhares de trabalhadores da obra. Em depoimento à CNN, o ex-eletricista Luis Vargas expressou tristeza com o estado atual do local e com os milhões investidos sem conclusão. Na fachada da edificação, permanece legível uma placa com a inscrição: “Que o átomo seja um trabalhador, não um soldado!”
Enquanto o plano nuclear cubano permaneceu inconcluso, a energia nuclear expandiu-se por outras nações das Américas, conforme dados da AIEA. Os Estados Unidos contam com 94 reatores operacionais; o Canadá possui 17; a Argentina opera 3; o México tem dois; e o Brasil mantém duas unidades na usina de Angra, com capacidade de gerar cerca de 2.000 megawatts, patamar próximo ao déficit relatado pela União Elétrica de Cuba em 16 de setembro.
