Os acidentes de trânsito representam um desafio constante para os serviços de emergência no Brasil, sendo o traumatismo cranioencefálico (TCE) uma das consequências mais severas desse cenário. De acordo com o neurocirurgião Dr. Cesar Cimonari de Almeida (CRM/SP 150620 e RQE 66640), colisões ou quedas ocorridas em poucos segundos podem deixar sequelas permanentes, afetando de forma ainda mais crítica os motociclistas.
Estatísticas do Ministério da Saúde indicam que, entre 2011 e 2021, as internações de motociclistas decorrentes de lesões no trânsito saltaram de 70.508 para 115.709. No mesmo período, a taxa de internação elevou-se de 3,9 para 6,1 casos por 10 mil habitantes, o equivalente a um crescimento de cerca de 55%. Em 2021, o grupo já respondia por 61% das internações por lesões de trânsito computadas no levantamento.
Entenda os riscos do traumatismo cranioencefálico
O TCE manifesta-se quando uma força externa causa danos ao cérebro, o que dispensa a obrigatoriedade de fraturas no crânio ou ferimentos visíveis. Uma desaceleração brusca decorrente de uma colisão já é suficiente para deslocar o cérebro internamente. A gravidade oscila desde concussões leves até contusões, hemorragias, hematomas intracranianos, edema cerebral e lesão axonal difusa, esta última provocada pelos movimentos rápidos de aceleração e desaceleração.
Especialistas alertam que os sinais nem sempre aparecem imediatamente. O indivíduo pode manter a consciência e conversar normalmente e, horas mais tarde, manifestar sintomas de sangramento intracraniano. Sinais como perda de consciência, confusão mental, sonolência excessiva, vômitos repetidos, convulsões, fraqueza unilateral, alterações na fala, cefaleia intensa ou qualquer declínio neurológico pós-trauma demandam atendimento médico imediato.
A importância da proteção adequada
Embora nenhum equipamento elimine integralmente o risco de lesão cerebral em ocorrências com motos, o capacete atua diretamente na região mais vulnerável e determinante para o prognóstico médico. Sua finalidade consiste em absorver e dispersar parte da energia do impacto, mitigando a força direcionada ao crânio e ao encéfalo.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que capacetes seguros e de boa qualidade podem diminuir em até 74% o risco de lesão cerebral e em mais de seis vezes o risco de morte. Adicionalmente, a OMS classifica o trauma de cabeça como a principal causa de mortalidade entre condutores de motocicletas.
Contudo, a eficácia do equipamento depende de qualidade adequada, dimensionamento correto e de estar devidamente afivelado. Pesquisas reunidas pela OMS mostram que capacetes que se deslocam durante o sinistro perdem grande parte de sua capacidade protetora, elevando o risco de lesões na cabeça e na face caso sejam ejetados.
Sobrevivência e sequelas de longo prazo
Para a neurocirurgia, o foco não se restringe à mortalidade, abrangendo também as sequelas em sobreviventes de TCE grave. O trauma pode prejudicar memória, atenção, linguagem, capacidade de planejamento, equilíbrio e coordenação motora, além de provocar alterações de comportamento e personalidade. Conforme a extensão da lesão, pacientes jovens e independentes podem demandar meses de reabilitação ou auxílio permanente, impactando a vida profissional, familiar e a autonomia.
O uso do capacete não anula a necessidade de outras condutas de segurança, como respeito aos limites de velocidade, direção responsável, manutenção veicular e abstenção de álcool. Contudo, no momento do impacto, o item atua diretamente entre a cabeça do condutor e a força da colisão, tornando o uso de um equipamento seguro e afivelado uma medida indispensável.
Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/saude/acidente-de-moto-o-capacete-pode-decidir-o-futuro-do-cerebro/
