A obsessão começou cedo — e em um lugar improvável. A., hoje adulto, tinha apenas 10 anos quando travou seus primeiros contatos com imagens eróticas e pornográficas em revistas espalhadas sob a bancada do salão de cabeleireiro que frequentava. Depois vieram os filmes alugados ou exibidos na TV de madrugada. Com a internet, ele passou a frequentar unidades de lanchonetes de fast food com computadores de acesso irrestrito, seu canal para o mundo do sexo. O passo seguinte veio com a compra de um smartphone, que multiplicou as cenas na palma da mão. Já adulto, chegou a passar oito horas por dia consumindo pornografia.
Dependência atinge 10% da população e pode destruir famílias
“Meu cérebro só pensava em sexo”, conta o vendedor, que pediu anonimato à reportagem de VEJA enquanto continua em tratamento para a dependência. Ele não está sozinho. Com o fácil acesso a sites e a ascensão das plataformas de conteúdo adulto, o chamado uso problemático de pornografia atinge, segundo novos estudos, cerca de 10% da população, podendo evoluir para uma doença mental e destruir famílias. O consumo de fotos, vídeos e transmissões ao vivo se tornou uma realidade que, para algumas pessoas, transforma prazer em sofrimento.
A. não dormia e acessava conteúdos até no trabalho, mas nunca se contentava: “Queria cenas cada vez mais fortes”. Especialistas comparam esse comportamento a uma dependência, já que compartilha circuitos cerebrais ativados pelo uso de drogas. “As pessoas desenvolvem uma tolerância à pornografia tradicional e precisam de doses cada vez mais intensas para ter o efeito esperado”, descreve o psiquiatra Thiago Henrique Roza, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que investigou o tema em doutorado.
É por isso que canais que oferecem práticas bizarras ou até zoofilia ganham adeptos, um problema agravado com o surgimento de filmes protagonizados por avatares de inteligência artificial.
Vício não escolhe gênero e afeta relacionamentos reais
O vício não consome apenas horas da vida de homens e mulheres — sim, delas também. Está associado a problemas que vão de abstinência, ansiedade e depressão a dificuldades de construir relacionamentos no mundo real. Também abre portas a outras dependências. A. passou a frequentar boates de prostituição, onde conheceu a cocaína. Numa rotina de intoxicações, perdeu o emprego duas vezes. “Não tenho dúvida que tudo começou com aquele contato com a pornografia lá na infância”, afirma ele, que participa dos encontros virtuais da D.A.S.A. (Dependentes de Amor e Sexo Anônimos).
A iniciação precoce está ligada a maior risco de dependência no futuro. Segundo a psiquiatra Carmita Abdo, professora da USP, estudos de neuroimagem demonstram que o consumo de vídeos de sexo pode retardar o desenvolvimento cerebral na infância. “O mínimo que vai acontecer é a criança se tornar refém de práticas altamente performáticas que não vai conseguir alcançar ao longo da vida, gerando prejuízos sociais e de autoimagem”, afirma.
Daí a preocupação dos especialistas com a propaganda de plataformas de conteúdo adulto como Privacy e OnlyFans, que ganhou novo capítulo com o anúncio de que uma empresa do ramo, a Fatal Fans, virou patrocinadora da camisa do Corinthians. O receio de uma exposição massiva, incluindo a de menores, levou deputados a elaborar um projeto de lei antipornografia que visa limitar a publicidade, sobretudo no contexto esportivo e cultural.
Terapia e prevenção são essenciais para combater o problema
Para a educadora parental Andyara Nóbrega, restringir o acesso pode resguardar a psique de jovens e favorecer, no momento adequado, uma relação melhor com a sexualidade. “Quando crianças aprendem sobre esses assuntos de forma oportuna e gradativa, ficam inclusive menos vulneráveis à pornografia”, diz.
Esse comportamento pode se tornar uma válvula de escape emocional a partir da adolescência, como ocorreu com o influenciador Guilherme Gomes, de 25 anos: “Toda vez que eu me sentia triste ou feliz, assistia. Qualquer sensação me levava ao mesmo lugar”. Segundo a sexóloga francesa Aurore Malet-Karas, autora do livro Cérebro, Sexo e Amor, muitas pessoas recorrem à pornografia hoje como meio de aliviar o estresse, criando um círculo vicioso que prejudica a rotina e a conexão com o parceiro e outras pessoas.
O uso problemático de pornografia costuma exigir tratamento médico e psicológico. Gomes conseguiu se libertar, aos poucos, graças a sessões de terapia. “Você não melhora do dia para noite, mas cai e levanta várias vezes. Só procurando ajuda para não cair ainda mais fundo”, diz o influenciador. Terapias em grupo ou individuais e medicamentos para controle dos impulsos estão entre as abordagens mais efetivas para domar o vício.
