O mercado de trabalho dos Estados Unidos gerou somente 29 mil vagas de emprego fora do setor agrícola em setembro, resultado que ficou bastante aquém das 90 mil vagas projetadas pelo mercado. A taxa de desemprego avançou de 4,1% para 4,2%, ao passo que os salários cresceram abaixo das previsões. Os dados foram publicados na sexta-feira, 2, pelo Bureau of Labor Statistics.
O relatório também apresentou revisões negativas referentes aos meses anteriores. O saldo de julho foi ajustado de uma criação de 21 mil vagas para o fechamento de 10 mil postos de trabalho. Em agosto, a abertura de vagas despencou de 162 mil para 133 mil. Com tais modificações, o acumulado dos dois meses registrou 60 mil postos a menos do que o divulgado inicialmente.
Impacto nas expectativas do Federal Reserve
O cenário mais fraco diminuiu as apostas em um novo acréscimo nos juros pelo Federal Reserve (Fed) já em outubro, embora não tenha descartado uma alta até o encerramento do ano. A probabilidade de o Fed manter os juros na reunião de outubro subiu de 75,6% em 1º de outubro para 86,2%, conforme a ferramenta FedWatch, do CME Group, enquanto a chance de uma nova elevação recuou para 13,8%.
Os rendimentos dos títulos do Tesouro norte-americano sofreram retração e a moeda americana perdeu força, beneficiando ativos de risco. O Fed havia elevado a taxa para a faixa de 3,75% a 4% ao ano em setembro. No entanto, a inflação segue acima da meta de 2%, o que mantém o banco central sob cautela. Para Felipe Mecchi, economista do C6 Bank, a desaceleração não indica uma crise no mercado de trabalho. Ele aponta que a renda ainda apoia o consumo familiar, mas pode dificultar uma queda mais acelerada da inflação nos serviços, tornando provável uma alta da taxa básica em dezembro e reduzindo as chances de mudanças na reunião dos dias 27 e 28 de outubro.
Vinicius Flores, gestor de investimentos e sócio da Stratton Capital em Nova York, concorda que o Fed deve manter a taxa estável no mês, ponderando que o payroll fraco se une à desaceleração recente do núcleo do PCE, que ficou em 3%. Contudo, ele alerta que o próximo Índice de Preços ao Consumidor (CPI) será o fator decisivo para um eventual novo aumento.
Reações no mercado financeiro e cenário político
A retração do dólar frente a uma cesta de seis moedas fortes fez o índice DXY cair de 102,07 para 101,85 pontos. O rendimento dos títulos do Tesouro de dez anos diminuiu de 5,22% para 5,17%. Juros longos mais baixos oferecem suporte às bolsas americana e brasileira, podendo direcionar capital a mercados emergentes. O recuo nos preços do petróleo também colaborou para o apetite ao risco, embora o conflito no Oriente Médio continue no radar.
O enfraquecimento das contratações também traz reflexos políticos para o governo do presidente Donald Trump, aproximando-se das eleições de meio de mandato que definirão a composição do Congresso. William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, aponta que o desemprego em alta, somado aos impactos econômicos do conflito no Irã, dificulta a situação do atual governo. Apesar da perda de ritmo, o desemprego permanece em patamares baixos e as demissões seguem limitadas, oferecendo ao Fed tempo para avaliar novos indicadores.
