O presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, afirmou nesta quinta-feira (24) que a instituição manifesta preocupação com ofertas de crédito consideradas agressivas ou predatórias. Segundo ele, essas práticas podem induzir o consumidor a assumir dívidas caras ou que superem sua capacidade de pagamento.
De acordo com Galípolo, a atenção do consumidor frequentemente se restringe a verificar se a parcela cabe no orçamento, sem uma avaliação adequada do custo total do débito e dos juros aplicados. O presidente do BC defendeu a implementação de medidas voltadas a ampliar a transparência e a conscientização nas contratações de empréstimos e financiamentos, além de alterações no processo de contratação que ofereçam mais tempo e informações para o cliente analisar o compromisso financeiro.
Durante coletiva sobre o Relatório de Política Monetária, Galípolo destacou que o problema envolve o design da experiência do usuário, pontuando que uma parcela da população prioriza o valor da prestação em detrimento da taxa de juros. O dirigente informou que, entre os cerca de 100 milhões de brasileiros com dívidas no cartão de crédito, aproximadamente metade está sujeita a taxas próximas de 15% ao mês, comprometendo fatias significativas de sua renda.
Cartão de crédito e endividamento
O cartão de crédito permanece como uma das principais modalidades ligadas ao endividamento familiar. O crédito rotativo atingiu juros de 425% ao ano em janeiro, período em que o saldo da modalidade cresceu 31%, alcançando R$ 84,8 bilhões. Em fevereiro, as famílias destinavam quase 30% da renda mensal ao pagamento de débitos, enquanto o indicador geral de endividamento chegou a 50% da renda acumulada em 12 meses.
Entre as alterações aguardadas pelo setor está uma possível mudança no Fator de Ponderação de Risco (FPR) para operações de cartão de crédito e empréstimo pessoal sem garantia (crédito não consignado), parâmetro utilizado para calcular reservas de capital das instituições financeiras.
Medidas em estudo e impactos das apostas
O Banco Central analisa experiências internacionais para enfrentar o superendividamento, avaliando alternativas como exigir que públicos vulneráveis autorizem expressamente o recebimento de ofertas de empréstimos, a exemplo de critérios adotados em Singapura. Galípolo ressaltou que as estratégias serão apresentadas gradativamente e devem considerar o risco de migração da oferta de crédito para instituições não bancárias (NBFIs), o que geraria vazamentos fora do perímetro de supervisão do BC.
Questionado sobre as apostas esportivas (bets), Galípolo pontuou que o Banco Central acompanha os efeitos econômicos e financeiros do fenômeno no consumo, na renda e no crédito, mantendo a análise restrita a esses aspectos econômicos. O tema também foi discutido em reunião na quarta-feira entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ministros, na qual o governo avaliou medidas de restrição às apostas.
