NewsHub
Economia

Bancos centrais globais avaliam juros altos devido à corrida por liquidez impulsionada por IA

Banqueiros centrais globais reunidos em Bangkok alertam que o boom da inteligência artificial gera alta demanda por capital e novas pressões inflacionárias, elevando a perspectiva de juros altos.

Redação•16 de out. de 2026, 14:30
Bancos centrais globais avaliam juros altos devido à corrida por liquidez impulsionada por IA
Imagem: site

Bancos centrais globais avaliam juros altos devido à corrida por liquidez impulsionada por IA

Ouça esta matéria em voz alta

O avanço da inteligência artificial está provocando uma disputa mundial por capital, o que tem levado autoridades monetárias a ponderarem um cenário em que as taxas de juros permaneçam elevadas e os governos adotem maior rigidez fiscal após um período de ampla liquidez. Projetos associados diretamente ou indiretamente à IA — que abrangem desde chips de silício, centros de dados, até infraestruturas elétricas e de telecomunicações — recebem investimentos massivos de governos e corporações, impulsionando a economia global e encarecendo o crédito.

Reunidos em Bangkok por ocasião dos encontros anuais do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, banqueiros centrais das principais economias do planeta apontaram que a expansão também gera novas pressões inflacionárias e vulnerabilidades financeiras. O motivo é que os aportes financeiros antecedem de forma significativa os ganhos produtivos prometidos pela tecnologia.

Kevin Warsh, presidente do Federal Reserve, declarou durante o evento que a situação deve ser encarada como um choque. Segundo ele, o movimento afeta a demanda agregada da economia antes de repercutir sobre a oferta. Warsh pontuou que, embora os Estados Unidos colham os frutos de uma crescente onda de investimentos, a transição tem potencial para ser muito turbulenta enquanto investidores, empresas e formuladores de políticas lidam com uma inovação cujos vencedores definitivos ainda geram incerteza.

Outros representantes do G20 presentes na capital tailandesa alertaram que uma modesta revisão para baixo nas projeções otimistas de lucros que dão suporte aos investimentos em IA bastaria para desencadear instabilidade profunda nos mercados, a exemplo da desvalorização recente observada nas ações de tecnologia asiáticas.

A discussão reflete uma guinada em relação ao período pós-crise financeira de 2008, quando o receio central dos formuladores de políticas girava em torno do excesso de poupança global e da baixa inflação crônica. Atualmente, o cenário oposto prevalece entre os banqueiros centrais.

Martins Kazaks, integrante do comitê de política monetária do Banco Central Europeu (BCE), destacou à Reuters que há uma disputa global por recursos financeiros e que os aportes em inteligência artificial figuram entre os principais impulsionadores do encarecimento do dinheiro. A pressão é intensificada por nações como Estados Unidos, Japão e Alemanha, que contraem empréstimos volumosos voltados a iniciativas de defesa, energia e política industrial.

Para as autoridades monetárias, tal dinâmica sugere que o nível de juros neutro necessário para equilibrar as economias — conhecido como R-estrela — pode estar em elevação. Lesetja Kganyago, governador do Banco Central da África do Sul, avaliou que as nuvens que encobrem o cálculo do índice estão muito densas, embora haja certeza de que o patamar neutro esteja mais alto, sem precisão exata sobre a magnitude. Huw Pill, economista-chefe do Banco da Inglaterra, corroborou que as taxas médias podem se situar em patamares ligeiramente superiores.

O Banco do Japão atribuiu à demanda ligada à IA os seus recentes reajustes de juros, apontando que as pressões inflacionárias decorrentes de investimentos ganharam abrangência e persistência. No mercado, economistas projetam que o Banco da Inglaterra promova uma elevação de taxas em sua próxima reunião marcada para 5 de novembro. O BCE e o Fed elevaram os juros em setembro, com expectativas de novas medidas de ambos em dezembro já precificadas pelos mercados.

O panorama de custos de crédito estruturalmente mais altos traz desafios para nações que acumularam dívidas vultosas na época em que os juros operavam perto de zero. O rendimento de títulos soberanos cresceu globalmente, alcançando recentemente marcas não registradas desde antes da crise financeira global. A zona do euro, com destaque para a França e seu elevado endividamento, foi apontada como particularmente vulnerável.

Enquanto a maior parte do investimento impulsionado por IA se concentra nos Estados Unidos, no Japão e em outras regiões da Ásia — tendo ASML e Siemens entre as raras beneficiadas europeias —, o bloco europeu lida com custos de energia mais altos decorrentes dos conflitos no Irã e na Ucrânia. A situação intensifica as pressões inflacionárias e aperta as contas públicas.

Christine Lagarde, presidente do BCE, pontuou em um evento da CNN em Bangkok que há circunstâncias particulares que tornam alguns países mais afetados, citando a França como exemplo, e frisou que a solução primordial para esse caso reside em medidas de política fiscal tomadas internamente.

Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/money/macroeconomia/bcs-globais-consideram-elevar-juros-em-meio-a-corrida-por-liquidez-com-ia/

Compartilhar