Uma nova iniciativa voltada à conscientização sobre o glioma busca alertar a população e a classe médica a respeito dos sintomas e dos desafios no diagnóstico de um dos principais tipos de tumor cerebral. Batizada de "Isso é um glioma", a campanha tem entre seus embaixadores o ator mineiro Pablo Sanábio, de 44 anos, que compartilhou sua trajetória com a doença após sofrer uma convulsão em 2024.
O artista relatou que os primeiros sinais surgiram enquanto trocava mensagens no WhatsApp, quando sentiu a visão turva e pensou tratar-se de ansiedade. Nos dias seguintes, enfrentou lapsos de memória, como esquecer onde ficava a escola da filha ou como solicitar um aplicativo de transporte. O quadro culminou em uma convulsão, que resultou em internação, exames de imagem e a confirmação de um tumor cerebral. Após passar por cirurgia para extirpar a lesão e realizar biópsia, ele descobriu o diagnóstico de glioma.
O glioma é um câncer que se origina em células do sistema nervoso. Os sintomas mais frequentes englobam convulsões, alterações visuais e cognitivas, dificuldades na fala ou na coordenação motora, dores de cabeça intensas, náuseas e vômitos. O tratamento de Pablo envolveu sessões de radioterapia e quimioterapia. Em maio de 2025, o ator entrou em remissão e passou a adotar a missão de falar abertamente sobre a condição.
A campanha "Isso é um glioma" foi lançada pelo laboratório francês Servier, que completa 50 anos no Brasil e 70 anos de atuação global. Com o lema "O primeiro passo é enxergar. O segundo é se informar", o movimento utiliza o depoimento e a imagem de pacientes e especialistas, registrados em um ensaio visual conduzido pelo fotógrafo Gustavo Gaiote, que também superou a doença.
Panorama médico e avanços terapêuticos
Considerado o principal tipo de tumor primário do cérebro e o tumor sólido mais comum entre crianças e adolescentes, o glioma possui uma prevalência estimada em 4,5 casos a cada 100 mil habitantes. A neuro-oncologista Caroline Chaul, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, aponta que a classificação da doença evoluiu a partir de 2009 para incorporar a presença ou ausência de mutação no gene IDH.
Segundo a médica, cerca de 40% dos pacientes apresentam essa alteração genética, fator que possibilita tratamentos direcionados com medicamentos específicos. A especialista ressalta que pacientes com glioma de baixo grau e IDH mutado podem alcançar sobrevida de décadas. A detecção do tumor ocorre por meio de exames de imagem, como ressonância magnética, seguidos de biópsia para determinar o perfil molecular.
As opções terapêuticas combinam cirurgia, radioterapia, quimioterapia, monitoramento ativo e terapias-alvo. Desde 2024, a Servier introduziu no mercado fármacos voltados especificamente à mutação de IDH, de uso oral, focados em atingir as células cancerosas e preservar os tecidos saudáveis.
Desafios na jornada do paciente
Para avaliar os obstáculos enfrentados por quem recebe o diagnóstico, a Servier uniu-se ao Instituto Oncoguia em uma pesquisa realizada com 23 brasileiros de várias regiões. O levantamento indicou que 20% dos entrevistados demoraram mais de um ano para obter o diagnóstico, enquanto 45% esperaram entre três meses e um ano, e 65% aguardaram mais de 90 dias. Luciana Holtz, presidente do Instituto Oncoguia e coordenadora do estudo, aponta que a descoberta geralmente ocorre após uma convulsão e passagens por três médicos diferentes.
Entre as principais barreiras apontadas estão o desconhecimento dos profissionais de saúde e a dificuldade de acesso a exames, especialmente na rede pública. O estudo também revelou que 40% dos pacientes saíram da consulta sem saber se o glioma era um câncer, e 43% não realizaram ou não souberam informar se fizeram o teste para a mutação no gene IDH — exame que no Brasil é disponibilizado sem custos pelo programa IDHentifique, mantido pela Servier.
O impacto psicológico e financeiro também se destacou: 70% dos participantes relataram ansiedade em relação ao futuro e medo da progressão da doença. Para oito em cada dez, a família atua como principal suporte, havendo ainda aumento nos gastos domésticos decorrentes do tratamento. Matthieu Mendil, diretor-geral da Servier no Brasil, reforça o compromisso da companhia com a inovação terapêutica e o suporte aos pacientes.
