Desde que o presidente Javier Milei assumiu o cargo em dezembro de 2023 até junho, 31.342 empresas fecharam as portas na Argentina, o equivalente a cerca de 6% do total. Os dados são do Centro de Economia Política Argentina (Cepa), com base em informações da Superintendência de Riscos Ocupacionais (SRT) e do sistema previdenciário, uma vez que não existe um registro oficial específico sobre abertura e encerramento de negócios no país.
O cenário econômico argentino é marcado por contrastes. Enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu a uma taxa de 2,2% no primeiro semestre ao ser comparado com o mesmo período do ano anterior, e a inflação despencou de mais de 211% para 33,5%, as políticas de choque do governo geraram forte impacto social. A pobreza subiu de 28,2% para 32,3% no primeiro semestre de 2026, o desemprego gira em torno de 8% e um terço da população que contraiu empréstimos enfrenta inadimplência. Além disso, a renda e o poder de compra real continuam abaixo da inflação, enquanto serviços básicos encareceram após cortes de subsídios.
O governo de Javier Milei tem defendido as transformações estruturais. Durante visita a Nova York, o presidente afirmou não ver "nenhum problema" com o crescimento econômico e rejeitou temores de recessão técnica. Sobre o aumento da inadimplência, Milei declarou que a expansão do crédito privado gera um crescimento natural da inadimplência durante a transição. Em relação à sobrevivência da população, o presidente classificou como "estúpida" a afirmação de que 80% dos argentinos passam por dificuldades, questionando o argumento em evento em Puerto Iguazú. Sobre as falências, Milei afirmou que "aqueles que estão em pior situação, se não se adaptarem, irão à falência", minimizando o impacto no emprego ao apontar que muitas empresas fechadas contavam com apenas uma pessoa.
A dinâmica do mercado de trabalho também mudou. O presidente reconheceu que a criação de vagas ocorreu no setor informal, enquanto o setor formal encolheu, resultando em uma expansão líquida. O Ministro da Desregulamentação e Transformação do Estado, Federico Sturzenegger, anunciou recentemente que mais de meio milhão de empregos foram criados no atual governo com base em dados do Instituto Nacional de Estatística, gerando debates entre economistas sobre a qualidade dessas ocupações.
No setor corporativo, há divergências claras de desempenho. Áreas como mineração, energia, agricultura e serviços bancários impulsionam o crescimento e trazem dólares essenciais para as metas fiscais e monetárias do governo, atraindo bilhões em compromissos de investimento em gás, petróleo, lítio e minerais críticos. Em contrapartida, o comércio e a indústria manufatureira sofrem com a queda no consumo, aumento de tarifas, alta pressão tributária e a abertura comercial às importações.
Pequenos empresários sentiram diretamente os efeitos da crise. Alejandro Marchizotti, dono de uma hamburgueria que fechou no final de maio após ver as vendas despencarem e os custos de aluguel e serviços públicos subirem, relatou ter reduzido o quadro de cinco funcionários para apenas um antes de encerrar as atividades. Atualmente, aos 63 anos, ele trabalha como motorista de aplicativo.
Especialistas divergem sobre os rumos e os impactos do modelo econômico atual:
- Hernán Letcher (diretor do Cepa): Argumenta que os setores geradores de empregos estão com desempenho ruim e que a fatia menor do bolo econômico está sendo dividida com novos concorrentes que importam produtos, afetando a indústria nacional. Segundo ele, a prioridade da administração tem sido acumular dólares.
- Guido Zack (Fundar e Unsam): Aponta que abrir a economia sem condições equitativas, em que empresas estrangeiras pagam menos impostos que as nacionais, combinado com dólar forte e financiamento caro, representa uma "sentença de morte" para empresas locais.
- Miguel Boggiano (CDI Capital): Defende que o número de fechamentos é puxado por pequenos negócios e usado para atacar o governo. Para ele, a economia passa por uma transformação estrutural necessária que elimina setores antes sustentados por emissão monetária e inflação, prevendo uma recuperação gradual à medida que os salários superem a inflação.
O debate sobre o fechamento de empresas, as dívidas, a perda de postos formais e o custo de vida deve se intensificar no próximo ano, período em que os eleitores argentinos irão às urnas para as eleições presidenciais.
