O Paraguai enfrenta uma forte crise bancária após uma intervenção no Ueno Bank, principal banco digital do país, ocorrida na última terça-feira (3). A medida foi tomada pelo Banco Central após constatar que a solvência do sistema da instituição estava abaixo da metade do mínimo exigido. O episódio já provocou a renúncia da autoridade máxima da autarquia financeira e gera forte pressão política contra o presidente Santiago Peña.
A situação gerou paralisação e bloqueio das contas dos 3 milhões de usuários da instituição, montante equivalente a quase metade da população paraguaia, estimada em 6,1 milhões de habitantes. O banco digital também administrava US$ 850 milhões em fundos públicos, atingindo expressivo número de aposentados. Com o congelamento de ativos e passivos, a população enfrentou pânico, falhas em aplicativos e longas filas para saques no dia seguinte à ação do Banco Central.
O crescimento acelerado da instituição nos últimos meses veio acompanhado de escrutínio regulatório devido a empréstimos excessivos a empresas ligadas ao Grupo Vázquez, controlador do banco. A repercussão negativa afetou os títulos em dólares do Ueno com vencimento em 2031 e os títulos soberanos do Paraguai. Analistas apontam semelhanças entre o caso paraguaio e a situação do Banco Master, de Daniel Vorcaro, liquidado no Brasil em 2025 após enfrentar graves problemas de liquidez e comprometimento financeiro.
Crise política e pedido de impeachment
Diante da repercussão e da pressão de parlamentares que já exigiam mudanças na administração do banco central por rejeitarem relatórios anteriores, o presidente Santiago Peña solicitou a renúncia do presidente do Banco Central, Carlos Carvallo. O cenário político se agravou com a apresentação de um pedido oficial de impeachment contra Peña e seu vice por 35 deputados da oposição.
A solicitação de impedimento fundamenta-se em alegações de:
- Conflito de interesses e cooptação do Estado;
- Manipulação regulatória e desvio de fundos de aposentadorias;
- Superação de limites de crédito para o Ueno e acobertamento institucional pelo Banco Central;
- Indícios de enriquecimento ilícito;
- Impacto negativo sobre a confiança no sistema financeiro nacional e exposição a risco sistêmico.
Investigações e impactos no mercado
O Ministério Público do Paraguai abriu investigações criminais sobre o caso, decretou a prisão de oito pessoas ligadas à instituição financeira e imputou outros 27 indivíduos por supostos vínculos com irregularidades financeiras. A Superintendência de Bancos informou que designará auditores para apurar a situação patrimonial do Ueno Bank.
Tanto o presidente Santiago Peña quanto o Banco Central declararam que o Ueno representa um caso isolado e não reflete o cenário do sistema financeiro nacional. Peña enfatizou que os responsáveis devem responder perante o Judiciário sem privilégios. Por sua vez, a Associação de Bancos do Paraguai (Asoban) pontuou que as demais instituições funcionam normalmente e auxiliam no atendimento aos clientes que migram suas contas.
Apesar da garantia de normalidade no setor, o episódio traz preocupações sobre a reputação do Paraguai como destino emergente para aportes de Capital Estrangeiro na América do Sul. Para o ano de 2026, o Banco Mundial projeta um crescimento de 4,7% no PIB paraguaio, impulsionado por avanços em segurança, consolidação fiscal e investimentos privados.
