O cientista político Leo Barreto afirmou em entrevista ao programa VEJA em Foco, apresentado por Raquel Novaes, que a democracia brasileira não vai suportar repetidas eleições conduzidas sob o atual modelo de forte interferência judicial. Segundo o especialista, a sucessão de recursos, decisões judiciais e alterações de entendimento jurídicos às vésperas da votação compromete a estabilidade do processo eleitoral e o debate político.
Durante a entrevista, o programa abordou casos ocorridos na reta final da campanha, como a resolução do presidente do Supremo Tribunal Federal para combater petições em processos antigos com o intuito de direcionar pedidos a relatores específicos, além de discussões sobre o uso de telões em comícios e a disputa em torno da candidatura de Anthony Garotinho ao governo do Rio de Janeiro.
Risco à segurança do eleitor e desconfiança
Na avaliação de Barreto, a demora na definição de candidaturas pode levar o eleitor a votar sem a garantia de que o voto será considerado válido posteriormente. O cientista político criticou a capacidade da Justiça Eleitoral de solucionar impasses antes do pleito, alertando que o cidadão vota de boa-fé e, após a eleição, descobre que os votos foram anulados, o que gera insegurança e desconfiança pública.
Para Barreto, o volume de controvérsias encaminhadas aos tribunais faz com que parte da Justiça atue como um fator de instabilidade institucional.
Impacto de estratégias jurídicas
O especialista também comentou a prática de submeter novos pedidos vinculados a processos antigos já existentes no Supremo, manobra que visa direcionar demandas a ministros específicos. Segundo Barreto, essa conduta é um veneno que alimenta suspeitas de arranjos entre advogados e magistrados, embora tenha ressalvado que não afirma a existência de tais acordos. Ele classificou o cenário como um risco institucional de primeiríssima grandeza, especialmente em eleições acirradas.
Esvaziamento do debate programático
O cientista político apontou que a judicialização resulta no esvaziamento das discussões sobre propostas, substituídas por embates jurídicos e acusações. Em sua visão, as campanhas passam a gastar mais recursos com advogados do que com comunicação, fazendo com que crises judiciais dominem a agenda pública em detrimento da apresentação de ideias de candidatos fora dos principais polos.
Ao concluir, Barreto reforçou que o modelo observado na disputa precisa ser analisado com cautela extrema, visto que o padrão atual não pode se tornar rotina para o país.
