A partilha de verbas do fundo eleitoral no partido Rede Sustentabilidade provocou um novo atrito entre a direção nacional da legenda e o grupo político da ex-ministra Marina Silva. Os dados registrados no DivulgaCandContas, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mostram que Marina, candidata ao Senado por São Paulo, recebeu 1 milhão de reais da sigla para sua campanha.
Em contraste, a deputada federal Luizianne Lins, que disputa uma vaga no Senado pelo Ceará, obteve 2,2 milhões de reais da legenda. Já Heloísa Helena, candidata a deputada federal pelo Rio de Janeiro, ficou com 2,8 milhões de reais. Com os números, o repasse a Marina equivale a menos da metade do montante destinado a Heloísa Helena e a cerca de 45% da quantia repassada a Luizianne Lins.
A campanha de Marina contestou os valores e informou ter procurado a direção nacional da legenda para solicitar uma revisão da quantia, mas o pedido não foi atendido. Para o grupo da ex-ministra, a disparidade representa mais um episódio das divergências que há anos separam a ala ligada a ela do comando atual do partido, que está nas mãos do grupo de Heloísa Helena.
A situação ganhou repercussão especialmente no caso de Luizianne Lins. A ex-prefeita de Fortaleza integrou o PT por 37 anos e filiou-se à Rede em 2 de abril deste ano para disputar o Senado pelo Ceará. Mesmo com a filiação recente, ela recebeu mais do que o dobro da quantia destinada a Marina, que é uma das fundadoras da sigla e principal nome nacional da legenda. Marina também recebeu 1,1 milhão de reais do PSOL, partido com o qual a Rede forma uma federação desde 2022, embora o questionamento de sua campanha seja direcionado especificamente aos recursos da Rede.
Heloísa Helena está no centro da disputa interna que resultou na mudança de comando nacional da legenda em 2023, quando seu grupo venceu a eleição interna contra a ala próxima a Marina. A ex-senadora recebeu 2,808 milhões de reais da sigla para a sua candidatura à Câmara dos Deputados pelo Rio de Janeiro.
A legislação eleitoral estabelece que cabe aos partidos definir os critérios para a distribuição do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) entre as candidaturas, respeitando as regras legais — como cotas para mulheres, pessoas negras e indígenas — e aprovando os critérios por meio da direção nacional. O TSE aponta que essa definição é uma decisão interna sujeita ao controle da Justiça Eleitoral apenas nos aspectos previstos na lei. Em 2022, a Rede recebeu 35,8 milhões de reais do fundo eleitoral, montante que representava cerca de 0,72% do total de 4,96 bilhões de reais destinados ao conjunto dos partidos.
Procurada pela VEJA para prestar esclarecimentos sobre a diferença nos valores repassados às candidaturas, a direção da Rede Sustentabilidade não havia se manifestado até a publicação da reportagem.
A divisão dos recursos segue uma resolução aprovada pela direção nacional da legenda em 16 de julho, determinando que a Comissão Executiva Nacional deliberar sobre a destinação, remanejamentos e complementações com base em critérios fundamentados da sigla. A norma não fixa valores fixos por candidatura, pontuando que o registro não garante recursos e que os repasses consideram o planejamento estratégico, a estratégia eleitoral, o estágio da campanha e as necessidades de cada candidatura.
O novo conflito em torno do dinheiro público acontece após uma série de divergências anteriores que chegaram a levantar dúvidas sobre a permanência de Marina no partido. Em 2023, após a vitória do grupo de Heloísa Helena no congresso nacional da legenda, integrantes da ala de Marina discutiram uma possível saída da sigla, mas o grupo negou que houvesse uma decisão final. Meses depois, Marina optou por permanecer na legenda. Em entrevista à VEJA em agosto, ela afirmou ter recebido convites de outras siglas, mas justificou que sua permanência era motivada por razões programáticas.
