Após mais de três décadas de amplo domínio do Partido Republicano, o Texas voltou a registrar um cenário de competitividade para os democratas nas eleições dos Estados Unidos. O fator principal para essa mudança de tendência reside na insatisfação generalizada dos eleitores com a economia, somada ao avanço da candidatura de James Talarico na corrida pelo Senado.
O Texas exerce forte influência na configuração do Congresso americano, respondendo por 38 das 435 cadeiras da Câmara dos Representantes, além dos dois cargos de senador. O peso desses assentos é visto como crucial para o desfecho das Eleições de Meio de Mandato de 2026, conhecidas como Midterms. Historicamente, desde o triunfo de Ronald Reagan em 1980, os candidatos republicanos triunfaram nas 12 eleições presidenciais realizadas no estado. A legenda também assegurou as últimas oito disputas para o governo estadual, desde 1994, enquanto o último democrata eleito pelo Texas para o Senado ocorreu em 1988.
Neste ano, contudo, o mal-estar popular com o encarecimento do custo de vida tem modificado o panorama eleitoral em território nacional e texano. Clifford Young, presidente de pesquisas de opinião pública na Ipsos nos Estados Unidos, aponta um clima de pessimismo generalizado diante da alta dos preços e da pressão sobre os custos de energia impulsionada pelo conflito no Irã. Segundo o especialista, o contexto econômico ditará se o Texas retornará ao campo democrata ou se manterá republicano.
Dados levantados pelo Projeto de Política do Texas da Universidade do Texas em Austin, coordenado por James Henson, mostram que a economia e a inflação se consolidaram como a principal preocupação do eleitorado local ao longo dos últimos três anos. Em abril de 2022, 61% dos eleitores republicanos apontavam a imigração e a segurança de fronteira como o maior problema do estado, percentual que recuou para 24% em outubro de 2026. No mesmo período, economia e inflação concentraram 35% das respostas entre republicanos, 29% entre democratas e 41% entre independentes.
A taxa de inflação nos Estados Unidos alcançou 3,7% nos 12 meses encerrados em setembro, patamar considerado elevado por americanos habituados a índices próximos a 2% antes da pandemia. Para Young, medidas econômicas do governo Trump, a exemplo de tarifas, confrontos geopolíticos com o Irã e disputas comerciais com o Canadá, divergem das expectativas da população. O especialista avalia que o foco do americano comum é conseguir pagar as contas em dia, e que o cenário atual desfavorece a administração federal.
Dinâmica demográfica e o fator James Talarico
O Texas configura-se como o segundo maior estado em extensão territorial do país, atrás do Alasca, e abriga a segunda maior economia nacional. A maior parte de seu eleitorado concentra-se em quatro grandes polos populacionais: Dallas–Fort Worth, Austin, San Antonio e Houston. Nesses centros urbanos, as grandes cidades registram maioria democrata, enquanto os subúrbios exibem vantagem republicana. Em contrapartida, as áreas rurais representam 15% da população, votam de maneira conservadora e destinam de 65% a 70% dos votos aos republicanos, conforme detalha Henson.
Analistas apontam que a competitividade atual reflete circunstâncias de curto prazo e não uma transformação estrutural do Texas em um reduto democrata. A disputa ao Senado exemplifica esse contexto: o candidato republicano Ken Paxton enfrenta desgastes decorrentes de problemas pessoais, éticos e legais, tornando-se vulnerável em um ano marcado por baixa aprovação do presidente Donald Trump e por apreensões econômicas.
A vaga para o Senado é disputada de forma acirrada entre o deputado estadual democrata James Talarico e o republicano Ken Paxton, procurador-geral do estado. Pesquisa da CNN divulgada em 29 de outubro atribui a Talarico 49% das intenções de voto, contra 43% de Paxton. Talarico, de 37 anos, é estudante de teologia presbiteriana e tem trajetória ligada a igrejas cristãs progressistas em Austin. Paxton, de 63 anos, integra a ala conservadora do partido, mas foi alvo de denúncias de corrupção e abuso de poder que resultaram em seu impeachment pela Câmara estadual em 2023 — embora tenha sido absolvido pelo Senado estadual. No ano anterior, Paxton também repercutiu nacionalmente devido a um divórcio após 38 anos de casamento e alegações de infidelidade conjugal.
A contenda ganhou repercussão nacional após declarações de Donald Trump em maio, nas quais o presidente classificou Talarico como um "insulto a Jesus Cristo". O deputado democrata rebateu as críticas afirmando que o verdadeiro insulto aos preceitos cristãos consiste em retirar a saúde de doentes, deportar famílias, bombardear crianças e ignorar os pobres. Críticas internas ao apoio de Trump a Paxton também surgiram; o senador republicano Thom Tillis classificou o endosso como um "erro colossal" em entrevista à CNN. O próprio Trump fez comentários dúbios sobre a aparência de Paxton em eventos públicos em Dallas e em conversas com candidatos de outros estados.
Impacto nos distritos e no eleitorado latino
As eleições para a Câmara dos Representantes também apresentam incertezas. Em agosto de 2025, o governador Greg Abbott liderou um redesenho dos distritos eleitorais estaduais para converter redutos democratas em áreas de inclinação republicana. Atualmente, os republicanos detêm 24 assentos no estado, contra 13 dos democratas, com uma vaga vago. A reconfiguração pretendia assegurar mais cinco distritos aos republicanos, mas o avanço democrata colocou o resultado em aberto, especialmente no 28º distrito (representado por Henry Cuellar) e no 34º distrito (de Vicente Gonzalez), ambos ocupados por democratas moderados e latinos que buscam a reeleição.
O voto latino desempenha papel relevante, uma vez que representa 27% do eleitorado texano. Historicamente, de 60% a 65% desse grupo votava nos democratas, embora Trump tenha conquistado apoio expressivo na última eleição presidencial. Pesquisas recentes, como levantamento da Hart Research/TelevisaUnivision e uma pesquisa da CNN divulgada em 29 de outubro, indicam reversão na tendência: eleitores latinos de distritos competitivos apontam intenção de votar em democratas por margens expressivas, como 63% para James Talarico contra 29% para Ken Paxton, refletindo o descontentamento com a inflação e com políticas rígidas de imigração.
Disputa pelo governo estadual e reflexos nacionais
A corrida pelo governo do Texas também alcançou projeção nacional. O republicano Greg Abbott tenta o quarto mandato consecutivo para se tornar o governador com mais tempo no cargo na história do estado, mas enfrenta a deputada estadual democrata Gina Hinojosa, originária da região de Austin. A candidata registrou crescimento nas pesquisas e empata tecnicamente com Abbott, configurando a disputa mais acirrada pelo governo texano nas últimas duas décadas.
Para o cientista político Clifford Young, a tendência histórica das Eleições de Meio de Mandato — em que o partido do presidente raramente conquista vitórias expressivas — deve se confirmar, com projeções de 85% de probabilidade de os democratas garantirem a maioria na Câmara e 60% de chances no Senado. Caso os democratas assumam o controle de ambas as casas legislativas em Washington, o cenário político sofreria reviravoltas profundas, incluindo a possibilidade de abertura de processos de impeachment e um severo enfraquecimento político do presidente Donald Trump, transformando-o em um governante com restrições institucionais de atuação.
