O sedentarismo desponta atualmente como um dos principais fatores responsáveis pelo envelhecimento precoce do sistema cardiovascular. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que cerca de 1,8 bilhão de adultos, o equivalente a aproximadamente 31% da população global, não alcançam os patamares mínimos recomendados de movimentação diária. A falta de exercícios já representa a quarta maior causa de mortalidade em todo o planeta, respondendo por 9% das mortes prematuras.
Em entrevista à CNN Brasil, o cardiologista Gustavo Duque, profissional vinculado à Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e ao Hospital Samaritano Barra, da Rede Américas, pontuou que a inatividade física acelera a degradação metabólica e vascular. Segundo o especialista, o problema estimula o acúmulo de gordura abdominal, resistência à insulina, distúrbios nas taxas de colesterol, hipertensão arterial e um quadro de inflamação crônica no organismo.
O impacto do sedentarismo no corpo
Enquanto a prática eventual de exercícios auxilia o organismo a diminuir a inflamação sistêmica, o sedentarismo prolongado gera inflamações contínuas, elevando as probabilidades de complicações cardiovasculares. O comportamento inativo costuma vir acompanhado de obesidade, diabetes, hipertensão e padrões inadequados de alimentação.
As repercussões no corpo atingem tanto a estrutura do músculo cardíaco quanto a dinâmica da circulação sanguínea:
- No miocárdio: Na ausência de estímulos provocados pelo esforço físico, o órgão sofre atrofia por desuso, perdendo a complacência, que é a habilidade de relaxar e se encher de sangue. O resultado é um músculo ineficiente, que precisa bater mais vezes por minuto para executar o mesmo trabalho que um coração treinado realizaria com menor esforço.
- Nos vasos sanguíneos: Ocorre disfunção endotelial na camada interna que reveste as artérias. O corpo reduz a produção de óxido nítrico, composto encarregado de dilatar os vasos, tornando as artérias mais rígidas, elevando a pressão e gerando um cenário propício para a oxidação do colesterol ruim (LDL) e o surgimento de placas de gordura.
Com o passar dos anos, o processo fomenta ou agrava condições como Doença Arterial Coronariana — que pode causar angina e infarto —, Hipertensão Arterial, Acidente Vascular Cerebral (AVC), Insuficiência Cardíaca e Doença Arterial Periférica.
Critérios e sinais de alerta
A cardiologia classifica como sedentário o indivíduo que não cumpre ao menos 150 minutos semanais de atividade física moderada. Contudo, os prejuízos começam mais cedo, visto que poucas semanas de inatividade já provocam alterações no colesterol, na ação da insulina e na saúde dos vasos. Pesquisas do periódico JACC indicam que permanecer sentado por mais de 10 horas diárias anula parte dos benefícios do exercício, elevando o risco de insuficiência cardíaca e mortalidade, mesmo para quem treina em outros momentos do dia. Gustavo Duque recomenda a realização de três a quatro práticas de atividade física por semana.
O especialista alerta que o organismo tende a compensar o declínio físico de forma silenciosa, fazendo com que a pessoa acredite estar apenas sem preparo. Entre os sinais sutis de alerta que não devem ser ignorados estão:
- Falta de ar desproporcional ao subir lances curtos de escadas que antes exigiam pouco esforço;
- Sensação de peso, aperto ou incômodo no peito ao caminhar em ritmo um pouco mais acelerado ou em situações de estresse;
- Palpitações frequentes sem justificativa aparente;
- Ocorrências isoladas de tontura ou mal-estar.
Como reverter o sedentarismo
Diretrizes da OMS e da Sociedade Brasileira de Cardiologia estabelecem caminhos para combater o sedentarismo por meio da constância, com 150 minutos semanais de aeróbico moderado (como natação, dança, pedalada ou caminhada rápida) ou de 75 a 150 minutos de alta intensidade. Também é indicado incluir musculação ou exercícios resistidos ao menos duas vezes por semana para preservar a massa magra, otimizar a insulina e proteger a saúde vascular, além de adotar pausas ativas na rotina.
Para quem passou anos inativo, possui idade avançada, histórico familiar ou fatores de risco como tabagismo, hipertensão e obesidade, o cardiologista destaca a importância de uma avaliação médica prévia. O exame físico e investigações complementares são fundamentais para mapear a resposta da pressão arterial, identificar isquemias silenciosas e determinar com segurança a zona de frequência cardíaca ideal para iniciar os treinos.
Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/saude/o-que-o-sedentarismo-pode-fazer-com-o-seu-coracao-entenda-riscos/
