Um estudo recente aponta os principais motivos que tornam a conta de luz no Brasil mais cara em comparação a outros países com o mesmo perfil de geração de energia. Conforme o levantamento, quase 90% da energia gerada no país provém de fontes renováveis, com destaque para hidrelétricas e uma participação em alta da energia eólica e solar.
A pesquisa, elaborada pelo economista Daniel Duque, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a pedido do Centro de Liderança Pública, revela que mais de dois terços do valor da fatura não estão vinculados ao custo direto da energia. Os dados indicam que, em 2025, a parcela correspondente à energia representava cerca de 30,4% da conta. Isso significa que, em uma fatura de R$ 1 mil, apenas R$ 300 referem-se estritamente à eletricidade.
O restante do valor é composto por diferentes frentes:
- Distribuição: 26%
- Tributos: 18%
- Encargos setoriais: 15% (destinados a programas sociais e subsídios, como a irrigação na agricultura)
- Transmissão: 10%
Além disso, o estudo aponta fatores adicionais que encarecem a tarifa, como exigências legais que obrigam a compra de energia de termelétricas e hidrelétricas de pequeno porte, e o sistema de bandeiras tarifárias, aplicado quando há seca e o nível da água nas hidrelétricas diminui.
Em um ranking global de 138 países, o Brasil não ocupa a primeira posição em termos de energia mais cara, mas registra tarifas superiores às de nações com perfil renovável semelhante, a exemplo de Canadá, Noruega e China, que conseguem converter esses recursos em preços mais baixos para o consumidor.
Para Daniel Duque, economista da FGV Ibre, o país necessita de maior coordenação entre as esferas governamentais federal, estadual e municipal com o objetivo de mitigar perdas na transmissão e distribuição, consideradas mais elevadas no Brasil do que em outras regiões do planeta.
O impacto dessa alta afeta tanto o consumidor comum quanto o setor produtivo. Em um condomínio residencial na Zona Norte do Rio de Janeiro, com mais de 400 apartamentos e 3 mil moradores, a conta de luz atinge R$ 40 mil mensais. O síndico profissional Jorge Lima relata que o custo representa de 20% a 40% do valor total do boleto, limitando novos investimentos. Na indústria, o peso da eletricidade afeta a competitividade de produtos frente ao mercado internacional. Para conter despesas, empresas do setor produtivo têm adotado investimentos em usinas de energia solar, substituição por equipamentos mais eficientes e o uso de inteligência artificial na gestão do consumo.
