De acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), as economias avançadas devem registrar, em 2026, um déficit público estimado em 5,2% do Produto Interno Bruto (PIB). Trata-se do patamar mais elevado desde o ano de 2021, período em que os países ainda lidavam com os impactos da pandemia de covid-19. O alerta da instituição aponta que a pressão exercida por juros elevados sobre os orçamentos encarece o financiamento governamental e diminui a margem de manobra para enfrentar eventuais crises.
As projeções fiscais apresentadas no relatório de perspectivas econômicas divulgado na terça-feira, 13, mostram uma deterioração em relação aos dados de abril. Nos Estados Unidos e na China, a expectativa é de que os déficits alcancem ou ultrapassem 8% do PIB no atual ano. Vale notar que a China não integra o grupo de economias avançadas conforme a classificação da entidade.
O relatório detalha que o déficit corresponde à diferença entre receitas e despesas quando os gastos superam a arrecadação. Para cobrir esse saldo negativo, as nações recorrem à emissão de títulos públicos e pagam juros aos investidores. Taxas elevadas elevam tanto o custo para contrair novos empréstimos quanto para substituir dívidas próximas do vencimento.
Conforme o FMI, o cenário de endividamento elevado somado a fortes necessidades de refinanciamento expõe os governos a mudanças bruscas no mercado financeiro. Caso investidores passem a demandar taxas maiores para o financiamento estatal, as despesas com a dívida sobem e disputam recursos com outras áreas públicas. Além disso, os preços mais altos da energia dificultam a queda das taxas, encarecendo transportes e produção, o que leva bancos centrais a manterem os juros elevados ou postergarem cortes para conter a inflação.
Impacto na dívida mundial e alertas sobre os bancos centrais
A instituição prevê que a dívida pública global chegue perto de 100% do PIB na segunda metade desta década, recomendando a reconstrução da margem de manobra fiscal para viabilizar medidas emergenciais sem comprometer as contas públicas. Silvana Tenreyro, economista-chefe do FMI, declarou durante a apresentação do documento que “a economia mundial tem demonstrado resiliência, mas essa capacidade está atingindo seus limites”.
O Fundo também adverte que o crescimento das despesas e pressões políticas decorrentes de eleições podem intensificar cobranças sobre os bancos centrais, pressionando-os a facilitar o financiamento de governos ou a tolerar inflações acima das metas estabelecidas. A prioridade indicada às nações é a reestruturação das contas em razão dos custos de financiamento mais altos e do ambiente de incerteza.
Revisão para cima no crescimento global
Apesar do panorama de riscos, o FMI ajustou para cima a projeção de crescimento da economia mundial para 2026, passando de 3% para 3,1% em comparação à estimativa de julho. Para o ano de 2027, a expansão estimada foi mantida em 3,4%.
O avanço é impulsionado por investimentos em infraestrutura de inteligência artificial, que ajudam a atenuar os efeitos da alta do petróleo decorrente da guerra no Oriente Médio, beneficiando sobretudo economias receptoras desses aportes ou fornecedoras de equipamentos para o segmento. Contudo, o FMI pondera que uma eventual frustração com os resultados da tecnologia e a consequente redução de investimentos representam riscos para a demanda, o comércio e os preços de ativos financeiros, integrando a lista de ameaças globais ao lado da continuidade do conflito armado e do encarecimento da dívida.
