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Japão pode encarecer o crédito global mesmo sem vender trilhões

Mudança no regime de juros do Japão pode encarecer o crédito global de forma gradual, reduzindo o reinvestimento de trilhões de ienes no exterior.

Redação•12 de out. de 2026, 11:30
Japão pode encarecer o crédito global mesmo sem vender trilhões
Imagem: site

Japão pode encarecer o crédito global mesmo sem vender trilhões

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A mudança no regime de juros do Japão e os impactos sobre os mercados globais e ativos brasileiros foram investigados pelo Radar Econômico. O maior risco da virada dos juros japoneses para o cenário internacional pode não envolver uma venda em massa de Treasuries, uma alta abrupta do iene ou uma repetição da crise de agosto de 2024, mas sim ocorrer de forma silenciosa.

Quando os títulos estrangeiros adquiridos por bancos, seguradoras e fundos de pensão do país vencerem, parte desses recursos pode simplesmente deixar de ser reinvestida no exterior. No final de 2025, investidores japoneses mantinham 1,806 quatrilhão de ienes em ativos externos, montante superior a 11 trilhões de dólares. Desse total, investimentos em ações, fundos e títulos estrangeiros somavam 768,7 trilhões de ienes, enquanto a posição internacional líquida credora do país era de 561,8 trilhões de ienes.

Durante décadas, essa poupança financiou governos e empresas no mundo devido aos juros internos próximos de zero ou negativos. No entanto, o cenário mudou. O rendimento do título japonês de dez anos alcançou 3,075% em setembro, o patamar mais alto desde 1996, enquanto os papéis de trinta anos atingiram 4,13%.

A gestora Amundi informou que, considerando o custo da proteção cambial, um JGB de dez anos pode proporcionar um retorno próximo de 5% convertido para dólares. A PIMCO avalia que a alteração na alocação relativa já está em andamento. Pramol Dhawan, chefe de gestão de portfólios de mercados emergentes da PIMCO, explicou que os investidores japoneses encontram oportunidades mais vantajosas internamente, reduzindo a necessidade de buscar retorno fora do país.

Especialistas apontam que a tendência é de cautela. Sayuri Shirai, ex-integrante do conselho do Banco do Japão e professora da Universidade Keio, destacou que o processo tende a ser lento, com grandes instituições optando por deixar vencer parte dos papéis externos e reinvestir uma parcela menor no exterior, alterando gradualmente a oferta de capital.

Dados do HSBC indicam que bancos japoneses negociaram cerca de 70 bilhões de dólares em títulos estrangeiros em 2026, após terem adquirido cerca de 35 bilhões no ano anterior. Em agosto, investidores do país compraram um valor líquido de 4,8 trilhões de ienes em dívida soberana doméstica, o maior volume em três trimestres. As seguradoras de vida japonesas, que administram 438,6 trilhões de ienes — cerca de 2,8 trilhões de dólares —, ainda avançam com cautela devido ao risco de desvalorização dos papéis caso os juros continuem subindo.

Nos Estados Unidos, os dados do Tesouro mostram que investidores atribuídos ao Japão detinham 1,225 trilhão de dólares em Treasuries em janeiro, montante que caiu para 1,104 trilhão em julho, uma redução de 121,4 bilhões de dólares em seis meses. Embora a custódia não identifique com precisão o proprietário final, o Japão permanece como o maior detentor estrangeiro de títulos do Tesouro norte-americano.

Takahide Kiuchi, ex-conselheiro do Banco do Japão e economista do Nomura Research Institute, afirmou que os bancos japoneses têm margem para ampliar as compras de ativos domésticos, mas alertou que, se os rendimentos locais subirem devido à situação fiscal do próprio Japão, isso poderá pressionar os juros globais.

Para o Brasil, o impacto ocorre indiretamente. Segundo a Amundi, que mantém visão positiva sobre a dívida brasileira e o real, o país conta com um colchão de rendimento representado por juros superiores a 14% nominais e próximos de 9% reais. Contudo, a PIMCO avalia que o reflexo no Brasil se dará por três vias simultâneas: juros americanos mais elevados, câmbio e aumento do prêmio exigido nos títulos locais. Em setembro, investidores retiraram 26,3 bilhões de dólares dos mercados emergentes na primeira saída mensal desde junho, impulsionados pela alta dos juros nos Estados Unidos e pela retração global do apetite ao risco.

Fonte: https://veja.abril.com.br/economia/olho-no-japao-japao-pode-encarecer-o-dinheiro-no-mundo-sem-vender-seus-trilhoes/

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