Após terremotos na Venezuela, o programador venezuelano Jorge Bastidas, de 32 anos, desenvolveu o portal "Desaparecidos Terremoto Venezuela". Morando na Argentina e em Bogotá a trabalho no momento dos tremores de 24 de junho, Bastidas relatou sentir impotência por estar fora do país e decidiu criar a plataforma para que as pessoas pudessem registrar relatos e entrar em contato umas com as outras.
Com o auxílio da inteligência artificial Claude, da empresa Anthropic, o site foi projetado e publicado quatro horas e meia após os tremores. Inicialmente, o sistema utilizava um formulário com foto, nome, dados de contato e informações sobre o último paradeiro, adicionando tudo a uma base de dados construída com IA. No primeiro dia, a página registrou pico de tráfego de cerca de 800 mil usuários, o que exigiu mudanças na infraestrutura para evitar que saísse do ar.
A plataforma enfrentou desafios com o envio de conteúdos falsos, memes e imagens de nudez, levando à implementação de filtros, painéis de moderação e bloqueio de padrões de nomes. O site também sofreu dois ataques nos primeiros dias, incluindo um que alterou 15 mil registros e resultou na perda de cerca de 1,2 mil cadastros, além de investidas de bots que exigiram maior rigor nos controles de segurança.
Em 25 de junho, a LAB-CO, laboratório de inovação do México, ofereceu um modelo de reconhecimento facial adaptado do identIA — ferramenta forense usada no México e na Guatemala para identificar falecidos por tatuagens. Nas duas primeiras semanas, a seção de reconhecimento facial recebeu 19 mil visitas, auxiliando na busca em hospitais e na eliminação de registros duplicados.
Paralelamente, a advogada venezuelana Daneli Hernández mobilizou contatos na Venezuela para transcrever listas manuscritas de hospitais em Caracas e La Guaira. Uma equipe de 15 a 20 pessoas cruzou os dados de mais de 3 mil registros hospitalares com o site para marcar pessoas como encontradas.
Quase quatro meses após os tremores, a página acumula 82.610 registros e contabiliza pelo menos 29.486 pessoas que continuam sem contato, após depuração e eliminação de duplicidades por voluntários. O governo venezuelano não divulgou lista oficial de desaparecidos. Em 11 de julho, o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, afirmou que não podem se basear em especulações. Em 4 de agosto, o governador de La Guaira, José Alejandro Terán, indicou 1.579 desaparecidos. Outra plataforma independente, a Venezuela Reporta, estima 41.357 pessoas não contatadas.
Alceo Angelini, usuário que registrou um primo desaparecido na ferramenta de Bastidas, destacou a utilidade da iniciativa civil diante da ausência de comunicação governamental. Para o futuro, Bastidas planeja abrir uma central de atendimento para ligar para os números da base de dados e confirmar cada registro.
