A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil gerou forte impacto nos mercados financeiros da Argentina nesta segunda-feira (26). Após semanas de alta sustentada pela expectativa de vitória de Flávio Bolsonaro, ações e títulos argentinos passaram a registrar quedas com a reavaliação de apostas feitas por investidores antes do segundo turno.
O movimento teve início no Brasil, onde o real chegou a desvalorizar cerca de 12% em relação ao dólar na abertura, enquanto o Ibovespa recuou a ponto de acionar o mecanismo de interrupção temporária de negociações na B3. Os contratos futuros de juros também apresentaram alta. A reação refletiu a reversão de posições montadas após o resultado do primeiro turno, quando Flávio Bolsonaro terminou na liderança.
Queda de ativos e títulos da Argentina
No pré-mercado, ações de companhias argentinas negociadas em Nova York registraram perdas, incluindo o Mercado Livre — que possui o Brasil como um de seus principais mercados —, além dos bancos Galicia e Macro. Os títulos soberanos da Argentina também sofreram desvalorização.
O indicador de risco-país, que mede o custo adicional de financiamento do país frente aos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, iniciava o pregão em 707 pontos, patamar que representava o maior nível do ano no fechamento de sexta-feira. No câmbio, a cotação do dólar no Banco Nación atingiu 1.560 pesos, dez pesos acima da cotação anterior.
Especialistas ressaltaram que as referências iniciais de negociação apresentavam baixa liquidez e podiam oscilar com a abertura plena dos mercados, de modo que as perdas registradas antes do pregão cheio não indicavam isoladamente a extensão ou a duração de um eventual contágio.
Aposta eleitoral e contexto comercial
A reação do mercado possui um precedente recente: após o primeiro turno, a vantagem de Flávio Bolsonaro impulsionou ativos brasileiros e fez o risco-país argentino recuar. Parte do mercado interpretou o cenário como uma guinada política regional, apostando em um alinhamento estreito entre o governo de Javier Milei e uma eventual gestão brasileira de direita. Com a confirmação da vitória de Lula, investidores realizaram o desmonte dessas posições.
No âmbito comercial, o Brasil figurou como o principal destino das exportações da Argentina em 2025, de acordo com dados da chancelaria do país vizinho. Uma desvalorização do real pode baratear produtos brasileiros frente aos argentinos e impactar a competitividade externa da Argentina no mercado brasileiro, embora tal reflexo dependa da trajetória cambial e da demanda.
Perspectivas e riscos analisados
Analistas apontaram riscos variados, como a retração de ativos regionais, a pressão sobre o peso argentino e alterações no custo relativo de viagens. Enquanto uma moeda brasileira enfraquecida pode beneficiar turistas da Argentina no Brasil, também pode elevar os custos de produtos e serviços argentinos para brasileiros.
Contudo, especialistas advertiram que os desdobramentos futuros dependerão das próximas diretrizes econômicas adotadas por Lula, da composição de sua equipe e da condução da política fiscal do novo governo.
