Um levantamento indica que pelo menos 43 empresas ou grupos empresariais estrangeiros encerraram a produção, fecharam fábricas ou venderam seus negócios no Brasil no período de maio de 2015 a setembro de 2026. A lista abrange setores como automobilístico, alimentação, eletrônicos, varejo de beleza e moda, medicamentos, cimento, louças e metais.
As saídas são lideradas por negócios dos Estados Unidos, com um total de 16 retiradas. O ranking de países com companhias que deixaram o mercado brasileiro inclui ainda o Reino Unido (6), Japão (4), Alemanha (3), França (3), Espanha (2), Colômbia (2), Suíça (2), China (1), Holanda (1), Índia (1), Israel (1) e México (1).
Motivos das saídas e impactos econômicos
As justificativas apresentadas pelas companhias envolvem reestruturações globais, revisões de portfólio e mudanças de estratégia de negócios. Também pesaram prejuízos, problemas financeiros, crises globais e alterações no comportamento de consumo. Do total de casos, 17 ocorrências se deram durante o período da pandemia de covid-19.
Em alguns casos, companhias apontaram diretamente fatores locais, como altos impostos, custos de importação, riscos na economia, preço do dólar e o chamado Custo Brasil. A montadora Ford, ao sair em 2021, citou o ambiente econômico desfavorável e os efeitos da pandemia, enquanto a Mercedes-Benz atribuiu sua saída em 2020 à queda nas vendas, à situação econômica do país e à alta da moeda norte-americana.
A britânica Lush deixou o país em 2018 criticando a alta carga tributária, a recessão econômica prolongada e a instabilidade política. A Eventbrite encerrou suas atividades em dezembro de 2025 apontando que o cenário regulatório em constante mudança afetou a entrega de uma experiência fluida. Outras companhias, como a japonesa Sony e a franco-suíça Holcim, adotaram posturas mais sutis relacionadas às perspectivas de mercado e à busca por maior rentabilidade em países com moeda forte.
Visão de especialistas e concorrência
O economista Samuel Pessôa, pesquisador do BTG Pactual e da FGV, aponta que a decisão de deixar o país costuma envolver um conjunto de fatores, incluindo juros elevados, alto custo de capital, legislação trabalhista com alto nível de litigância e complexidade tributária. Para ele, a reforma tributária tem potencial para melhorar o cenário a partir de 2030, embora o próximo governo precise combater os juros altos e a baixa produtividade para atrair investimentos.
Além das questões macroeconômicas, algumas marcas enfrentaram forte concorrência e barreiras culturais. O Walmart encontrou concorrência do varejo local e rejeição à sua estratégia de "preço baixo todo dia". A Forever 21 esbarrou em impostos altos, custos de infraestrutura e na concorrência de marcas chinesas como Shein e Shopee antes de sair em 2022. Já a espanhola Glovo apontou a alta competitividade do mercado de entregas brasileiro ao encerrar sua operação em 2019 após apenas um ano.
Manutenção de produtos e vendas recentes
Apesar do encerramento das operações diretas, os produtos de 16 dessas empresas ainda continuam acessíveis no mercado brasileiro por meio de importações e estoques. O levantamento também aponta casos de transferência de controle e venda de negócios, a exemplo da transação da Holcim com a CSN, a venda da Kirin para a Heineken em 2017 e a transferência da AES para a Auren Energia em 2024.
Um dos episódios mais recentes ocorreu em 3 de setembro, quando a norte-americana General Mills concluiu a venda de suas operações para o grupo 3Corações por R$ 800 milhões, incluindo as marcas Yoki e Kitano. A marca de sorvetes Häagen-Dazs, contudo, deixará de ser distribuída no Brasil após quase 30 anos.
