A Medida Provisória nº 1.394/2026, que proíbe as casas de apostas, cortou uma importante fonte de financiamento dos clubes de futebol brasileiros, agravando o aperto financeiro das equipes. De acordo com a consultoria Sports Value, as bets respondem por 34% das receitas de marketing dos times e ocupam o posto de patrocinador master em catorze dos vinte clubes da Série A.
Diante do impacto financeiro, os dirigentes buscam anunciantes provisórios e alternativas para preservar os contratos com as bets, enquanto tentam ganhar tempo na expectativa de que o Congresso ou o STF revertam a medida. A insatisfação resultou em protestos em campo. Em 17 de outubro, na partida contra o Vasco, o São Paulo estampou na camisa a frase “Proibir não é proteger”.
O presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, conhecido como Bap, afirmou em entrevista reciente que o clube não terá dinheiro para pagar o salário de Lucas Paquetá em janeiro por causa da MP. A perda de patrocínios também ameaça acordos de reorganização financeira, como o do Botafogo. Documentos obtidos pela VEJA indicam que a recuperação judicial da equipe está em risco, visto que o contrato com uma casa de apostas previa receitas anuais de 50 milhões de reais. Na ação direta de inconstitucionalidade apresentada ao STF, o Botafogo argumenta que a intervenção compromete a execução do plano e afeta os credores.
Para contornar a situação momentaneamente, os clubes adotaram soluções improvisadas:
- São Paulo e Fluminense: passaram a exibir a marca Superscore para manter a exposição de um negócio associado à antiga patrocinadora.
- Corinthians: fechou acordo temporário com a Shopee até dezembro.
- Santos: firmou parceria temporária com o Agibank.
- Flamengo: fechou com a Lubrax.
Segundo Amir Somoggi, fundador da Sports Value, as casas de apostas pagam, em conjunto, de 500 milhões a 600 milhões de reais a mais em publicidade do que empresas de outros setores. Entre 2023 e 2025, o faturamento dos clubes com marketing cresceu 95%, alta que teria sido de apenas 25% sem os recursos das bets, aponta o especialista.
Especialistas criticam a condução da medida pelo governo federal. Carlos Lima, presidente do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável, aponta que a Premier League adotou um modelo bem-sucedido de transição ao estabelecer um prazo de três anos de adaptação para a retirada de anúncios de bets da parte frontal das camisas a partir da temporada 2026/2027.
