A principal meta da política comercial do quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltada ao agronegócio será manter a proximidade com os Estados Unidos. A avaliação é de Leonardo Trevisan, professor de relações internacionais da ESPM, em entrevista concedida ao programa CNN Agro News.
De acordo com o especialista, o objetivo é evitar o agravamento de disputas tarifárias que possam prejudicar determinados produtos brasileiros. Trevisan aponta que a competitividade do setor no Brasil figura entre os fatores que motivam as medidas comerciais adotadas pelo governo do presidente norte-americano, Donald Trump.
O professor destaca a força brasileira em itens como soja, algodão e carne, ressaltando a necessidade de demonstrar aos Estados Unidos que há espaço suficiente para a atuação de ambos os países no mercado internacional. Para ele, o avanço das exportações do Brasil não deve ser interpretado como uma ameaça aos produtores norte-americanos, estratégia que poderia atenuar as pressões tarifárias de Washington.
Desafios no setor norte-americano e investigações
Trevisan chama a atenção para o cenário de dificuldades enfrentadas pelos produtores agropecuários nos Estados Unidos, citando o endividamento e um crescimento de 40% nos pedidos de falência de empresas do setor no primeiro semestre de 2026, em comparação com o mesmo período de 2025.
A concorrência com o Brasil tende a intensificar a pressão sobre o mercado local norte-americano, influenciando as decisões comerciais de Washington. Entre os pontos de atenção apontados está a investigação conduzida pelos EUA com base na Seção 301 da legislação comercial do país, mecanismo utilizado para apurar práticas comerciais consideradas desleais.
Apesar de mencionar que Trump manifestou desconfiança em relação ao processo eleitoral brasileiro sem apresentar provas, o professor avalia que a declaração do líder norte-americano de que “gosta do presidente Lula” pode favorecer as negociações. Segundo Trevisan, a simpatia pelo mandatário brasileiro deve ser utilizada ao máximo para ampliar a presença de mercadorias nacionais além da carne e do café.
Desempenho e projeções no comércio global
O avanço das exportações reforça a importância das negociações diplomáticas. Os dados apresentados indicam que as vendas externas do agronegócio brasileiro cresceram 6% no primeiro semestre de 2026. Em 2025, o Brasil registrou cerca de US$ 169 bilhões em exportações do setor, ficando próximo dos Estados Unidos, que exportaram US$ 171 bilhões. A diferença de aproximadamente US$ 2 bilhões deixou os dois países parelhos no comércio global, abrindo a possibilidade de o Brasil superar os norte-americanos, o que tornaria a disputa ainda mais acirrada.
China, União Europeia e Sudeste Asiático
Além da relação com os Estados Unidos, a China permanece como prioridade comercial. O professor avalia que os laços entre Lula e o presidente chinês, Xi Jinping, podem facilitar a expansão das vendas para o mercado asiático.
Trevisan também destacou a aproximação de líderes europeus após a eleição, mencionando manifestações de figuras como a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, ao se referir ao “meu amigo Lula”. O acordo entre Mercosul e União Europeia é apontado como uma oportunidade, impulsionado pelo crescimento de 30% nas vendas brasileiras ao bloco no primeiro semestre.
Por fim, o Sudeste Asiático surge como nova fronteira de expansão. Conforme dados do Banco Central citados pelo professor, as vendas brasileiras para a região no primeiro semestre superaram o volume exportado para o Mercosul, impulsionadas pelo peso da China e pelo avanço nos demais países do bloco asiático.
