O terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi marcado pelo crescimento da economia, queda do desemprego para o menor nível da série histórica e avanço na renda média do trabalho. No entanto, os resultados positivos da atividade econômica tiveram alcance limitado na conquista do eleitorado, refletindo-se em uma disputa acirrada no segundo turno contra Flávio Bolsonaro (PL), culminando na reeleição de Lula com X% dos votos válidos, ante Y% do adversário, por uma margem estreita de X pontos percentuais.
Para economistas ouvidos pelo g1, o paradoxo entre os bons indicadores macroeconômicos e a falta de uma sensação generalizada de bem-estar financeiro ocorre porque o crescimento não beneficiou todos os setores e trabalhadores da mesma forma. O custo de vida, as dívidas e os juros elevados continuam pressionando o orçamento das famílias.
Indicadores positivos e alívio limitado no bolso
O país acumulou três anos seguidos de alta no PIB, mínimas históricas no desemprego, avanço na renda real e expansão do emprego formal. Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ibre), aponta que os indicadores agregados mascaram diferenças entre os setores e grupos da população:
“O PIB é uma média que reúne setores e famílias que estão, digamos, uns no micro-ondas e outros que estão no freezer. A média parece boa, mas não necessariamente está melhor para todo mundo.”
A economista destaca que a agropecuária e a indústria extrativa dependem dos preços internacionais de commodities, enquanto o comércio e parte da indústria refletem o consumo interno. No mercado de trabalho, o professor José Luis Oreiro, do departamento de economia da Universidade de Brasília (UnB), aponta que boa parte das novas vagas se concentrou em serviços de menor qualificação, sem avanço equivalente em funções de nível superior e salários mais altos.
O salário mínimo atual de R$ 1.621 permanece próximo, em termos reais, aos patamares de 2012 e 2013 (quando os R$ 622 de 2012 equivaleriam a R$ 1.393 em setembro de 2026 e os R$ 678 de 2013 corresponderiam a R$ 1.424 corrigidos pelo INPC). Para as famílias de menor renda, a alta contínua no preço dos alimentos pesa de forma expressiva, criando um efeito catraca em que os preços não caem, gerando pressão sobre o poder de compra.
Endividamento consome renda
Em julho de 2026, as famílias destinaram 28,7% da renda mensal ao pagamento de dívidas, conforme dados do Banco Central, com 17,2% para amortizar o principal e 11,5% para juros. O comprometimento ficou próximo ao recorde de 29,7% de fevereiro. A proporção de famílias endividadas subiu de 78% em janeiro de 2023 para 81,7% em setembro de 2026, segundo a Peic, sendo o cartão de crédito a principal modalidade, presente em 85,2% dos casos.
O governo lançou três edições do programa Desenrola para renegociação de dívidas. Alessandra Ribeiro, sócia e economista da Tendências Consultoria, avalia que as iniciativas ajudam no curto prazo, mas não removem os fatores estruturais:
“As duas primeiras mobilizaram renegociações intermediadas por plataformas que conectavam bancos e famílias. Já a terceira edição buscou ampliar a coordenação do governo federal com as instituições financeiras para obter descontos maiores que poderiam superar 90%.”
Contas públicas e pressão sobre os juros
A política fiscal do terceiro governo Lula enfrentou dificuldades para controlar despesas obrigatórias, como reajustes do salário mínimo acima da inflação, vinculações de pisos de saúde e educação à arrecadação e expansão de benefícios sociais. O Governo Central registrou déficits primários de R$ 228,5 bilhões em 2023, R$ 42,9 bilhões em 2024 e R$ 61,7 bilhões em 2025, além de saldo negativo de R$ 94,9 bilhões entre janeiro e agosto de 2026. A Dívida Bruta do Governo Geral atingiu 82,9% do PIB em agosto de 2026, somando R$ 11,1 trilhões.
A taxa básica de juros (Selic) iniciou 2023 em 13,75% ao ano, caiu para 10,5% em 2024, subiu a 15% em 2025 e estava em 13,75% perto das eleições do segundo turno. Silvia Matos aponta que a expansão de gastos sem receitas permanentes gerou um multiplicador fiscal negativo, pressionando a inflação e mantendo os juros elevados. Já Oreiro critica o arcabouço fiscal por tentar conciliar regras de gastos e resultado primário sem instrumentos independentes, alertando que o pagamento de juros da dívida pública precisa ser considerado no debate fiscal.
Reforma tributária, autonomia do BC e política industrial
- Reforma Tributária: VISTA por economistas como um avanço na simplificação de impostos e redução de distorções sobre o consumo.
- Banco Central: A manutenção da autonomia e a condução de Gabriel Galípolo foram elogiadas por especialistas devido à postura ortodoxa na política monetária.
- Política Industrial: A Nova Indústria Brasil recebeu críticas de Oreiro por não elevar a participação da indústria de transformação no PIB nem gerar empregos em grande escala, freada por juros altos e pelo real valorizado.
- Política Comercial: Ribeiro destacou positivamente a revisão de benefícios fiscais (como fundos offshore) e a diversificação de parceiros comerciais para reduzir a vulnerabilidade em relação a EUA e China.
Polarização e frustração de expectativas
Fatores sociopolíticos também moldam a avaliação do governo. Silvia Matos aponta que a ascensão do empreendedorismo e da classe C modificou a relação com o Estado, enquanto o PT teria falhado em compreender a amplitude da frente ampla contra Jair Bolsonaro. Por sua vez, José Luis Oreiro destaca a frustração de expectativas de parte da população que esperava o retorno imediato da prosperidade dos primeiros mandatos petistas.
