NewsHub
Economia

Como selecionar títulos de crédito privado em cenário de inadimplência

Em meio à alta da inadimplência empresarial no Brasil, investidores buscam estratégias para escolher títulos de crédito privado com segurança.

Redação•25 de set. de 2026, 07:55
Como selecionar títulos de crédito privado em cenário de inadimplência
Imagem: site

Como selecionar títulos de crédito privado em cenário de inadimplência

Ouça esta matéria em voz alta

Com a taxa Selic em patamares elevados nos últimos quatro anos, a renda fixa ganhou forte destaque entre os investidores no Brasil. Dentro desse segmento, o mercado de crédito privado — formado por títulos emitidos por empresas e bancos para captar recursos — atraiu volumes expressivos. Entre as opções estão os CDBs, debêntures e os certificados de recebíveis imobiliários e do agronegócio (CRIs e CRAs). Contudo, o avanço da inadimplência empresarial exige maior rigor na escolha dos emissores.

Dados da Serasa Experian apontam que 9 milhões de empresas registram contas em atraso no país. Entre elas estão nomes conhecidos do varejo, como o Grupo Pão de Açúcar e o Grupo Casas Bahia. No caso da Casas Bahia, a fintech Vitrify aponta que, dos 17 bilhões de reais em dívidas, 5 bilhões correspondiam a operações de crédito privado. Apesar dos números, especialistas indicam que o mercado não enfrenta uma crise generalizada, mantendo volumes expressivos de negociação.

A segurança dos investimentos varia conforme o tipo de papel. Os CDBs emitidos por bancos contam com a proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) dentro dos limites regulamentares. Por outro lado, debêntures, CRIs e CRAs não possuem essa garantia, o que torna fundamental a análise do endividamento, da geração de caixa e da estrutura financeira do emissor.

As dificuldades atuais de parte das companhias têm origem na forte expansão do crédito entre 2020 e o início de 2021, período em que a Selic estava em 2% ao ano. Com o encarecimento do crédito — que saltou para 13,75% ao ano entre março de 2021 e agosto de 2022 —, o setor varejista foi um dos mais pressionados.

Segundo Gustavo Pessoa, professor de finanças da Fundação Getulio Vargas, o cenário complica tentativas de renegociação e obriga empresas a emitirem novas dívidas a juros cada vez mais altos, criando uma espiral que pode resultar em acordos frustrados e recuperação judicial.

Apesar da multiplicação de recuperações judiciais — como a da Raízen, que anunciou em março a maior recuperação judicial da história do país com 61 bilhões de reais em dívidas —, o mercado manteve o ritmo. Guilherme Maranhão, presidente do Fórum de Estruturação de Mercado de Capitais da Anbima, compara o momento atual com a fraude contábil de 54 bilhões de reais da Americanas em 2023. Naquela época, as emissões de debêntures despencaram, enquanto em março de 2026 as emissões cresceram 70%, evidenciando um mercado mais maduro e seletivo.

Critérios de seleção e setores em destaque

Entre os filtros mais importantes para avaliar os emissores está a relação entre a dívida líquida e o Ebitda. Quando a dívida supera em 3,5 vezes o Ebitda anual das companhias não financeiras, a empresa entra em uma faixa de maior exposição financeira.

Setores como petróleo, etanol de milho, locação de veículos, energia elétrica e saneamento reúnem empresas com receitas mais previsíveis ou estruturas organizadas. Concessionárias de serviços públicos, como a Sabesp, destacam-se por contar com receitas recorrentes e tarifas corrigidas pela inflação, embora a análise de endividamento e caixa siga indispensável.

No segmento bancário, a atenção se volta aos CDBs com remunerações excessivamente altas. Marco Harbich, fundador da consultoria Gordon Capital, aponta que taxas muito acima da média exigem cautela, lembrando o caso do Banco Master, que oferecia 140% do CDI antes de enfrentar problemas. Para o especialista, o risco adicional muitas vezes não compensa, mesmo com a cobertura do FGC.

Liquidez e mercado secundário

A saída antecipada de uma aplicação depende da liquidez e da negociação no mercado secundário, onde papéis já emitidos são negociados entre investidores. Dados da Anbima mostram que as transações no mercado secundário alcançaram 601 bilhões de reais em 2025, superando as emissões primárias de 493 bilhões. No primeiro semestre de 2026, foram negociados 276 bilhões de reais, superando os 170 bilhões emitidos no mesmo período, o que reforça o amadurecimento e a diversificação da indústria de títulos corporativos.

Fonte: https://veja.abril.com.br/economia/como-escolher-titulos-de-credito-privado-em-meio-a-alta-da-inadimplencia/

Compartilhar