Às vésperas da eleição, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central optou por evitar assumir compromissos firmes em meio a um cenário considerado de significativo aumento da incerteza. Na quarta-feira (16), o colegiado reduziu a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, levando o indicador a 13,75% ao ano. Apesar de mudanças relevantes registradas nas últimas seis semanas, o comunicado da decisão praticamente repetiu o texto da reunião anterior, realizada em agosto.
Especialistas apontam que mudanças sutis no tom revelam um panorama mais construtivo sobre a inflação e mais preciso na leitura da desaceleração da atividade econômica, embora o comitê mantenha cautela nas projeções de médio prazo. O Copom passará a decidir novamente os rumos dos juros nos dias 3 e 4 de novembro, após a realização dos dois turnos da eleição presidencial.
Análise da atividade e do cenário externo
Enquanto em agosto o Copom indicava sinais mistos na atividade, o discurso recente passou a apontar de forma mais direta a desaceleração, destacando o impacto sobre os setores mais sensíveis ao ciclo econômico. No âmbito internacional, o preço do petróleo do tipo Brent subiu de cerca de US$ 79 por barril em 5 de agosto para fechar a última quarta-feira em US$ 105,83, após superar US$ 108 nos dias anteriores. No mesmo dia, o Federal Reserve elevou os juros em 0,25 ponto percentual, enquanto o comunicado brasileiro manteve a avaliação de que o ambiente externo permanece incerto.
Dados internos recentes trouxeram elementos benignos, como a deflação de 0,32% registrada pelo IPCA em agosto, que fez o acumulado em 12 meses cair de 4,44% para 4,22%, abaixo do teto de tolerância da meta de 3% ao ano. Por outro lado, indicadores de atividade como as vendas no varejo de julho recuaram 0,8%, e o IBC-Br caiu 0,22% no mesmo mês, após já ter recuado 0,64% em junho.
Perspectivas e riscos monitorados
O Banco Central manteve a balança de riscos com mais fatores para alta de preços do que para baixa. Entre os elementos no radar estão:
- A desancoragem das expectativas de inflação por período prolongado, incorporando impactos de segunda ordem de choques de oferta por causa da guerra no Oriente Médio e do El Niño;
- Maior resiliência na inflação de serviços do que a projetada;
- Impacto de políticas econômicas externas e internas com efeito inflacionário acima do esperado, incluindo uma taxa de câmbio persistentemente mais depreciada;
- Estímulos à demanda agregada e ao consumo que levem a um crescimento da atividade acima do potencial.
Economistas ouvidos destacam que o câmbio, o cenário fiscal no pós-eleição e as variáveis políticas continuam no centro das atenções do mercado financeiro para definir os próximos passos da política monetária e a trajetória da inflação e dos juros no país.
