Criminosos estão utilizando o TikTok como ferramenta para promover a venda de conteúdo de abuso sexual infantil, direcionando os interessados para o Telegram, onde o material é comercializado. Monitoramento realizado ao longo de semanas por mais de 30 perfis na plataforma revelou que códigos são empregados nos comentários de publicações — que variam desde vídeos de animais até conteúdos gerados por inteligência artificial — para driblar a fiscalização e atrair compradores.
No Telegram, as negociações ocorrem de três maneiras principais: conversas mediadas por robôs (bots), mensagens diretas com os criminosos ou o uso de miniapps, que funcionam como páginas semelhantes a sites dentro do próprio aplicativo. O material é comercializado em pacotes de fotos e vídeos, com preços acessíveis que competem entre si — partindo de R$ 10 ou alcançando valores em moedas estrangeiras, como pacotes de US$ 25, US$ 11,99 e US$ 17,50. Os pagamentos são efetuados por meio de criptomoedas ou PIX, e os criminosos frequentemente enviam amostras ou vídeos autodestrutivos antes da conclusão da transação.
Investigadores da Polícia Federal apontam que a utilização do PIX demonstra uma falsa sensação de segurança por parte dos criminosos, que costumam empregar contas de terceiros ou de "laranjas", acreditando que não serão rastreados. Contudo, a autoridade policial ressalta que as transações deixam rastros que auxiliam nas investigações, além do risco de bloqueio de contas por parte de bancos tradicionais diante de movimentações atípicas.
Especialistas e representantes de órgãos de proteção destacam a gravidade da situação. Ana Cláudia Cifali, coordenadora jurídica do Instituto Alana, enfatiza que o acesso, a produção e a divulgação de tal conteúdo constituem crimes no Brasil e que toda a cadeia — desde quem produz até quem compra — é passível de responsabilização legal. Em vigor desde agosto de 2026, a nova legislação sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva elevou as penas para quem produz ou vende esse material (de 4 a 10 anos de reclusão) e para quem adquire ou possui (de 3 a 6 anos), substituindo o termo "pornografia" por "violência sexual contra criança ou adolescente".
Dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública apontam que os registros de produção, posse ou distribuição de material de abuso sexual infantil somaram 4.063 casos em 2025, um aumento de 23% em relação ao ano anterior. Desse total, 34,2% dos autores denunciados às polícias civis eram adolescentes. Cauê Martins, coordenador de Infância e Juventude do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, alerta sobre a facilidade e a rapidez com que as redes sociais servem de porta de entrada para o aliciamento.
Em nota, o Telegram informou que proíbe expressamente a distribuição desse material e que excluiu mais de 339.760 grupos e canais relacionados ao tema em 2026, utilizando moderação humana e escaneamento de mídias públicas. O TikTok declarou que remove rapidamente publicações irregulares, bane contas envolvidas e utiliza tecnologia de ponta para monitoramento, reportando os casos ao Centro Nacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas (NCMEC). Por sua vez, a Meta afirmou que investe em tecnologia para detectar violações às suas regras de exploração e abuso infantil, enquanto a SaferNet Brasil destacou que esquemas semelhantes também ocorrem em plataformas como X, YouTube e Facebook.
