O senador Flávio Bolsonaro (PL) deixou o Brasil rumo aos Estados Unidos nesta terça-feira (27), dois dias após ser derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na eleição presidencial e um dia depois de o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinar a entrega de seus passaportes. Integrantes de seu entorno afirmam que o governo de Donald Trump sinalizou autorização de permanência no país.
A possibilidade da saída de Flávio começou com uma publicação do jornal argentino Infobae, que afirmou que o senador teria cruzado a fronteira em um voo privado rumo à Argentina. Ao longo do dia, a viagem para os Estados Unidos foi confirmada por fontes próximas à família Bolsonaro e por uma fonte do governo americano ouvida pela Reuters.
A cronologia dos fatos
Durante a manhã, com o paradeiro inicial desconhecido, o governo brasileiro acionou autoridades argentinas para apurar o deslocamento, enquanto a Polícia Federal (PF) verificava registros em postos de fronteira. O senador estava incomunicável e não respondia às tentativas de contato de sua equipe jurídica e de aliados. Os advogados aguardavam o contato para recolher os passaportes e entregá-los à PF conforme a ordem de Moraes. O prazo terminou às 11h sem a apresentação dos documentos físicos, levando a PF a cancelar os passaportes comum e diplomático nos sistemas. Flávio possui ainda cidadania italiana desde 2023, cujo documento só pode ser cancelado por autoridades da Itália.
No início da tarde, foi confirmada a viagem realizada na madrugada com a mulher e as duas filhas. Segundo aliados, a partida ocorreu por receio de prisão após a decisão do STF, com alegações de que o governo Trump teria sinalizado a possibilidade de asilo político para a família.
Investigações e repercussão política
Flávio Bolsonaro é investigado em três inquéritos no STF. Entre eles estão o caso Dark Horse — relatoria do ministro Mendonça —, que apura o financiamento da cinebiografia de Jair Bolsonaro (PL) envolvendo crimes como lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção, além de outra investigação sob relatoria de Moraes que apura lavagem de dinheiro e evasão de divisas envolvendo também o advogado Willer Tomaz.
A saída gerou reações diversas no cenário político:
- Aliados: O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, convocou reunião de emergência. Rogério Marinho declarou surpresa e afirmou que o núcleo central não foi comunicado. O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, adotou tom cauteloso. O governador eleito do Paraná, Sergio Moro (PL), classificou a saída como compreensível e questionou a ordem dos passaportes. O deputado Alfredo Gaspar (PL) afirmou que Flávio sofre perseguição implacável.
- Oposição: Os deputados federais Lindbergh Farias (RJ), Rogério Correia (MG) e a deputada eleita Ana Elisa Santos (MG) pediram a prisão preventiva de Flávio a Moraes. A deputada Sâmia Bomfim (PSOL) solicitou a cassação do mandato no Senado. Aliados e membros do governo também solicitaram um alerta vermelho da Interpol. O ministro José Guimarães (PT) criticou a atitude do senador.
Desdobramentos jurídicos e futuros
Especialistas ouvidos pela CNN Brasil avaliam que o descumprimento da entrega dos passaportes e o risco de fuga podem fundamentar um pedido de prisão preventiva, embora a decisão dependa da Justiça. A professora de Direito da FGV, Luisa Ferreira, afirmou que há um requisito claro para a prisão caso a tentativa de fuga seja confirmada. O advogado José Paes Neto declarou que a escolha é a pior possível para a defesa. A extradição dependeria de um caminho longo e incerto, enquanto o Departamento de Estado americano informou que emitirá vistos e permitirá a entrada da família, o que não equivale à concessão de asilo político.
No âmbito político, a ausência abre espaço para a discussão sobre a liderança da oposição, com interlocutores apontando o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), como alternativa para a disputa presidencial em 2030. Flávio perderá o foro privilegiado em fevereiro de 2027, ao término de seu mandato no Senado.
