Analistas do mercado financeiro projetam um pregão turbulento e apontam a possibilidade de até três circuit breakers nesta segunda-feira, 26, na esteira da vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno da eleição presidencial. Com 99,9% das urnas apuradas, o petista obteve 51,77% dos votos válidos, somando 64,17 milhões de votos, enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL) alcançou 48,23%, ficando cerca de 4,4 milhões de votos atrás do rival.
Em discursos após o pleito, Lula declarou que governará para todos os 215 milhões de brasileiros e agradeceu aos eleitores. Por sua vez, Flávio Bolsonaro classificou o resultado como inaceitável e anunciou que pedirá a anulação do pleito, argumentando que o adiamento de duas horas na votação, requerido pelas campanhas de PT e PL, exerceu influência sobre o desfecho.
No pré-mercado americano, por volta das 8h45, os reflexos já eram de baixa: o EWZ recuava 25,22, aos 31,85 pontos, e as ADRs da Petrobras despencavam 21,14%, cotadas a 20,63 dólares. Para Pedro Galdi, analista da AGF, o Ibovespa pode sofrer entre uma e três interrupções por circuit breaker, com o índice podendo cair dos atuais 205 mil pontos para até 164 mil pontos. "Depois, temos uma pausa e pode haver outra queda, com o Ibovespa alcançando os 174 mil pontos. Por fim, um terceiro circuit breaker pode levar o Ibovespa aos 164 mil pontos, o que seria extremamente negativo e poderia paralisar as negociações do dia", avaliou.
No mercado cambial, a expectativa é de que o dólar alcance facilmente os 5,10 reais no pregão desta segunda-feira, frente aos 4,98 reais registrados na sexta-feira. Na Bolsa de Chicago, o contrato futuro da moeda recuava 10%, sinalizando que o câmbio pode atingir 5,56 reais até o término do ano. Conforme Galdi, o tombo da Bolsa e a disparada do dólar ocorrem em razão de o mercado ter precificado o triunfo de Flávio Bolsonaro, visto como um nome com potencial para formar uma gestão de maior responsabilidade fiscal. O analista também criticou o pacote de medidas aprovado pela campanha petista, afirmando que a medida elevou os gastos públicos e representou um "tiro no pé".
Gustavo Pessoa, professor de Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV), pontua que Lula enfrentará um longo percurso para resgatar a confiança dos investidores, ponderando que a indicação de um nome dotado de credibilidade para chefiar o Ministério da Fazenda funcionaria como uma medida inicial para apaziguar o mercado. "Foi dito nos bastidores que Geraldo Alckmin poderia ser o ministro da Fazenda. Isso seria positivo, visto que Alckmin tem um perfil de centro-direita e, em suas gestões no estado de São Paulo, o caixa fechou no azul", declarou Pessoa.
Proteção de patrimônio e setores em destaque
Enquanto o clima de incerteza prevalece e o governo não recupera a confiança do mercado, gestores recomendam cautela e posicionamento em ativos específicos:
- Empresas com receitas em dólar: Companhias com caixa robusto, endividamento baixo e distante de setores como varejo e construção civil são apontadas como alternativas vantajosas.
- Agronegócio: Especialistas destacam ações como SLC Agrícola e Jalles Machado para compor portfólios no cenário atual.
- Indústria e Bens de Capital: A Trígono Capital, por meio do gestor Werner Roger, aponta papéis como Iochpe Maxion, Tupy e Marcopolo entre as recomendações da carteira de ações.
- Setor Bancário: A avaliação é de que o segmento sofrerá impacto fortemente negativo, já que as tesourarias teriam apostado na vitória de Flávio Bolsonaro.
