Às vésperas das eleições que definirão se o Partido Republicano do presidente Donald Trump manterá o controle do Congresso, os eleitores norte-americanos demonstram ceticismo e insatisfação com a economia. Os preços altos e crescentes são apontados como uma questão fundamental, com parte da população culpando as políticas da administração — especificamente as tarifas e o conflito com o Irã — pela inflação persistente.
Em contraste com o humor pessimista dos consumidores, os números oficiais apresentam um cenário mais complexo. A taxa de desemprego manteve-se em 4,2% em setembro e não ultrapassou 4,5% por cinco anos consecutivos, marcando o período mais longo já registrado. Os pedidos semanais de seguro-desemprego estão próximos da mínima em 57 anos, e o crescimento econômico geral registrou taxa anualizada de 3,4% no último trimestre, impulsionado pelo investimento empresarial e pela alta demanda relacionada à inteligência artificial.
Diferenças entre confiança macroeconômica e sentimento pessoal
Especialistas apontam uma divisão entre a confiança nos mercados e o sentimento pessoal dos cidadãos. Segundo Brian Jacobsen, estrategista econômico-chefe da Annex Wealth Management, o índice de confiança acompanha a macroeconomia, enquanto o índice de sentimento reflete a avaliação individual sobre finanças e o custo de vida. Pesquisas recentes mostraram variações, com uma medida do Conference Board apresentando melhora em outubro, enquanto o índice de sentimento da Universidade de Michigan atingiu uma mínima histórica.
O secretário do Tesouro, Scott Bessent, declarou à CNBC que, embora as pesquisas de mercado possam parecer pessimistas, o comportamento do consumidor e das corporações permanece forte, sustentado por uma combinação de políticas tributária, comercial, energética e regulatória.
Desafios da inflação e o impacto das taxas de juros
Apesar da resiliência em setores como o mercado de ações — que registrou dezenas de recordes históricos neste ano —, a inflação permanece acima da meta de 2% estabelecida pelo Federal Reserve. Os preços ao consumidor e os salários médios por hora acumulam alta de cerca de 5,5% desde janeiro de 2025, impulsionados em parte por custos globais de combustíveis devido à guerra com o Irã, que já dura oito meses, e pela demanda associada à inteligência artificial.
Para conter as pressões inflacionárias, o Banco Central dos Estados Unidos elevou a taxa básica de juros em setembro e projeta novos aumentos nos custos de empréstimo para dezembro. O presidente do Fed, Kevin Warsh, definiu a medida como um remédio monetário para combater a inflação sem desestabilizar o emprego. Paralelamente, os juros de hipotecas de 30 anos superaram 7%, o que, somado à escassez de oferta de moradias, elevou os preços dos imóveis e dificultou o acesso à casa própria para muitos cidadãos.
Riscos de estagflação e sustentabilidade do boom tecnológico
Economistas como Torsten Slok, da Apollo Global Management, alertam para possíveis vulnerabilidades. Uma eventual reversão nas expectativas em relação à inteligência artificial pode afetar a confiança corporativa, os investimentos e o crescimento do PIB. Esse risco, somado a preços mais altos do petróleo, tarifas e restrições rígidas à imigração, pode elevar as pressões inflacionárias e criar um ambiente de estagflação, caracterizado pela desaceleração do crescimento econômica em conjunto com a persistência da alta de preços.
