O governo do Japão anunciou nesta sexta-feira (23) a criação de uma equipe dedicada a simular ataques cibernéticos com o uso de inteligência artificial (IA), com o objetivo de identificar falhas em sistemas tecnológicos. A iniciativa surge após uma onda de tentativas de invasão que levou empresas e órgãos públicos de diversos países a suspenderem sites para se protegerem de vulnerabilidades na linguagem de programação PHP.
Milhões de tentativas de invasão foram registradas na semana após a divulgação de falhas graves no PHP. A crise resultou em interrupções emergenciais de Tóquio a Helsinque, afetando serviços dos setores bancário, aéreo, ferroviário, tributário e governamental.
No Japão, a SoftBank, terceira maior operadora de telefonia móvel do país, suspendeu seu sistema de alertas de emergência para celulares durante a manutenção para corrigir a falha no PHP. Com mais de 30 milhões de clientes de smartphones, a empresa informou que o serviço ficará indisponível, fazendo com que os usuários deixem de receber avisos antecipados de terremotos, tsunamis e informações de desastres e evacuações. A SoftBank pontuou, contudo, que os clientes ainda poderão obter alertas de terremotos por outros canais, como o aplicativo da empresa Yahoo. O país é frequentemente atingido por desastres naturais, estando entre os mais propensos a terremotos no mundo, e também enfrenta a aproximação do tufão Champi em Okinawa, província ao sul.
Outras companhias e órgãos japoneses também interromperam temporariamente serviços on-line como medida preventiva, incluindo a corretora Nomura, o grupo financeiro Mitsubishi UFJ, a companhia aérea ANA, a operadora ferroviária JR East, o Ministério das Finanças, a Agência Nacional de Impostos e a Agência Meteorológica do Japão. Nesta sexta-feira, a JR East comunicou que parte de suas empresas afiliadas retomou as atividades, enquanto os demais serviços voltarão após checagens de segurança. A fabricante de tintas Nippon Paint instalou uma atualização por precaução e informou que seu site foi restabelecido.
O ministro japonês da Indústria, Ryosei Akazawa, declarou à Reuters nesta sexta-feira: "Um ataque pode ser bem-sucedido ao encontrar apenas uma brecha. Por isso, é importante mudarmos nossa mentalidade e pensar sob a perspectiva do invasor". O ministro acrescentou que os defensores também precisam adotar a inteligência artificial e agir de forma proativa, mantendo-se um passo à frente.
Por outro lado, Nobuo Miwa, presidente da empresa de segurança cibernética S&J Corp, sediada em Tóquio, avaliou que a resposta governamental foi lenta demais, comparando-a a "tentar enfrentar um homem-bomba com uma lança de bambu".
Para Eva Chen, presidente-executiva da empresa de segurança Trend Micro, os invasores provavelmente visam empresas japonesas devido aos registros detalhados mantidos por elas. Chen apontou que a IA diminuiu barreiras de idioma para ataques e que o Japão se tornou excessivamente confiante na segurança de sua infraestrutura tecnológica atual.
Especialistas em segurança cibernética alertam que criminosos estão utilizando inteligência artificial para automatizar a busca por vulnerabilidades e a criação de campanhas de phishing, tornando os crimes digitais mais ágeis, baratos e difíceis de detectar.
Os desenvolvedores do PHP lançaram correções na quarta-feira (21) para vulnerabilidades que persistiam havia anos e foram descobertas com o auxílio de IA, recomendando a atualização imediata do software.
