Partidos com menor participação parlamentar e forte intensidade ideológica divergem a respeito da proposta de alteração do modelo eleitoral do Legislativo para o voto distrital misto. A iniciativa integra os objetivos do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB).
A discussão ocorre após reuniões de Motta com lideranças do centrão. O plano prevê uma transição para eliminar os chamados puxadores de voto, figuras com forte presença online e perfil de massas que costumam inflar o número de cadeiras de seus partidos. Pela proposta, em 2030 seria implementado o distritão e, até 2034, o sistema brasileiro de votação para o Legislativo federal, estadual e municipal adotaria o modelo final de voto distrital misto, combinando 50% de eleitos pelos mais votados em distritos e 50% por listas partidárias. O tema deve tramitar por meio de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC).
Siglas de menor representação manifestam diferentes receios sobre a mudança. Lideranças de esquerda temem a redução de figuras ideológicas e midiáticas, a exemplo da deputada federal Érika Hilton (PSOL-SP). O líder do PSOL na Câmara, Tarcísio Motta (RJ), declarou que a bancada ainda não fechou posição, mas avalia que o voto distrital pode fortalecer o coronelismo e a compra de votos. O parlamentar acrescentou ver com bons olhos o voto em lista, desde que haja paridade de gênero, mas criticou a vertente mista por fragmentar ainda mais a política e prejudicar partidos ideológicos.
Outros parlamentares apontam divergências sobre a representatividade. Jonas Donizette (PSB-SP) argumentou que, em São Paulo, nomes como o deputado Lucas Pavanato (PL) não possuem conhecimento de todo o estado, e que um planejamento proporcional por distritos representaria melhor cada região. Já Kim Kataguiri (Missão-SP) afirmou que a proposta se torna razoável caso a formatação final reserve 50% para o modelo de lista. Em contrapartida, o presidente do Missão, Renan Santos, criticou anteriormente o modelo por favorecer lideranças locais e antigas, citando que o próprio Kim poderia ficar de fora.
Pela oposição, o líder na Câmara, Cabo Gilberto Silva (PL-PB), posicionou-se contrariamente à mudança nas redes sociais. O PL seria um dos mais afetados, visto que elegeu 121 deputados federais (cerca de 22% das cadeiras) e maioria nas câmaras estaduais.
A ofensiva articulada por Hugo Motta busca a sobrevivência do centrão diante da expansão do bolsonarismo, após siglas como União Brasil, PP, PSD e PSDB perderem cadeiras e apoiarem a reeleição do deputado paraibano para a presidência da Casa em uma coalizão que reuniu 444 votos.
