A pirataria somali voltou a crescer nas rotas marítimas, impulsionada por uma combinação de calamidade econômica, custos elevados e o desvio de patrulhas internacionais para outras regiões, como o Golfo Pérsico e o Mar Vermelho. O fenômeno, que já havia movimentado bilhões de dólares na década de 2010 e sido praticamente erradicado, registra os níveis mais altos de incidentes em uma década e meia, segundo dados da Operação ATALANTA da Força Naval da União Europeia.
O retorno da atividade criminosa foi ilustrado pelo caso do navio-tanque de diesel Honour 25. No dia 21 de abril, a embarcação foi atacada por piratas armados no Golfo de Áden. O navio transportava 2.700 toneladas de diesel e viajava do Porto de Shinas, em Omã, para Mogadíscio, capital da Somália. Segundo relatos da tripulação, a embarcação estava enferrujada, apresentava falhas mecânicas e operava sem protocolos básicos de segurança, sem contar com guardas armados ou arame farpado.
Após o ataque, os 17 tripulantes permaneceram confinados por cinco meses e meio em um espaço restrito da ponte de comando. Inicialmente exigindo um resgate de US$ 7 milhões, os sequestradores negociaram posteriormente a quantia de US$ 1 milhão com a empresa de gestão do navio, a Wharf Chartering. Durante o cativeiro, os suprimentos de alimentos a bordo esgotaram-se rapidamente devido à fome dos piratas, que também saquearam roupas e mantimentos. O impasse terminou após um acordo de resgate em meados de setembro.
Fatores que impulsionam o ressurgimento
Especialistas e autoridades apontam diversos fatores para o ressurgimento da pirataria na Somália:
- Desvio de patrulhas: A Marinha dos Estados Unidos e forças internacionais concentram esforços no Golfo Pérsico e no combate aos ataques houthis no Mar Vermelho e no Golfo de Áden, reduzindo a presença antipirataria na costa somali.
- Crise econômica e fome: A seca, o aumento nos custos de energia e alimentos, além de dificuldades nas exportações para a Arábia Saudita, agravaram a situação na Somália, que importa cerca de 90% de seus bens essenciais.
- Valorização de cargas: O aumento nos preços do petróleo tornou petroleiros e navios menores alvos altamente lucrativos, com exigências de resgate que podem chegar a US$ 10 milhões.
- Rotas de risco: Empresas de navegação com orçamentos apertados optam por navegar mais perto da costa da Somália para evitar os riscos associados aos conflitos no Iêmen e os altos custos de contornar o continente africano.
Analistas de segurança e oficiais navais, como o Vice-Almirante Ignacio Villanueva e representantes de instituições como o Institute for Security Studies e o Center for Maritime Strategy, destacam que a instabilidade regional e a necessidade financeira continuam alimentando as ações dos grupos criminosos na costa oriental africana.
Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/a-pirataria-na-somalia-esta-de-volta-aos-mares/
