O consumo de suplementos como creatina, whey protein e multivitamínicos tem ganhado destaque entre brasileiros em busca de energia e resultados rápidos nos treinos. No entanto, a ingestão dessas substâncias sem acompanhamento médico ou nutricional pode acarretar sérios riscos à saúde.
Em entrevista à CNN Brasil, a nutricionista Rafaela Kherlakian, especializada em clínica funcional, destacou que o principal perigo dessa prática é a ingestão de nutrientes em quantidades inadequadas, desconsiderando as necessidades reais do organismo, o histórico clínico e a alimentação do indivíduo. Segundo a especialista, grande parte das vitaminas, minerais e proteínas pode ser obtida por meio de uma dieta equilibrada, tornando a suplementação dispensável para muitas pessoas.
O uso sem orientação pode gerar desconfortos gastrointestinais, consumo excessivo de nutrientes, interações medicamentosas e o mascaramento de problemas nutricionais que exigem investigação.
Atuação e segurança dos suplementos
Cada substância atua de forma distinta no corpo humano. Conforme aponta Rafaela, a creatina monohidratada possui um perfil de segurança bem consolidado em adultos saudáveis quando consumida nas doses recomendadas. Por outro lado, os maiores riscos estão associados aos multivitamínicos e à mistura de múltiplos produtos, cuja sobreposição de ingredientes pode resultar em megadoses indesejadas.
A alimentação saudável geralmente supre as necessidades corporais. O whey protein atua como fonte prática de proteína — função também exercida por ovos, carnes, peixes, laticínios ou combinações vegetais —, sendo indicado para idosos, atletas ou pessoas com rotinas aceleradas que encontram dificuldades para atingir a meta proteica apenas com alimentos. Já a creatina auxilia no ganho de força e no desempenho em treinos de alta intensidade, permitindo alcançar com mais facilidade as concentrações observadas em estudos de performance. Contudo, a especialista ressalta que a creatina não substitui o treinamento, assim como o whey protein não substitui as refeições principais.
Mitos sobre proteínas e vitaminas
A nutricionista esclarece que consumir quantidades de proteína superiores às necessárias não garante maior ganho de massa muscular. A síntese proteica depende da prática de exercícios, do consumo energético adequado, da distribuição das proteínas ao longo do dia e das necessidades individuais.
Outro engano comum é acreditar que o consumo excessivo de vitaminas é inofensivo por se tratarem de nutrientes essenciais. As vitaminas lipossolúveis (A, D, E e K) acumulam-se no organismo junto às gorduras e podem provocar toxicidade:
- Vitamina A: o consumo desenfreado pode gerar alterações hepáticas, dores de cabeça intensas e riscos durante a gestação;
- Vitamina D: megadoses aumentam desproporcionalmente os níveis de cálcio no sangue, elevando o risco de complicações renais;
- Vitamina E: doses elevadas aumentam a probabilidade de sangramentos;
- Vitamina K: o excesso pode interferir na eficácia de medicamentos anticoagulantes, como a varfarina.
Orientações e cuidados
Para evitar riscos e desperdício financeiro, a avaliação clínica é apontada como o primeiro passo fundamental. O nutricionista é o profissional responsável por determinar a necessidade de suplementação, bem como indicar o produto, a quantidade, a frequência e a duração ideais para cada paciente. Exames laboratoriais como creatinina, taxa de filtração glomerular, hemograma, vitamina B12, vitamina D e dosagens de ferritina também auxiliam na identificação das reais necessidades do organismo.
Rafaela Kherlakian alerta ainda contra a compra de produtos motivada apenas pelo apelo de descontos em grandes liquidações. A melhor suplementação é aquela que atende às necessidades orgânicas, e não necessariamente a mais cara, a mais famosa ou a que apresenta o maior desconto.
