As ações de grandes empresas ligadas à inteligência artificial registraram quedas expressivas nas bolsas globais, impulsionadas por incertezas sobre o retorno financeiro dos investimentos bilionários no setor e pelo resultado das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos.
Na quinta-feira (5), o índice Nasdaq encerrou o pregão em baixa de 5,52%, marcando seu pior desempenho diário desde abril de 2025. Outros índices de Wall Street também fecharam no vermelho, com o S&P 500 registrando recuo de 4,36% e o Dow Jones caindo 3,44%. As sete principais empresas de tecnologia, conhecidas como Magnificent Seven, fecharam em baixa, com perdas que atingiram 10,8% no caso da Tesla.
O impacto foi particularmente forte nas companhias de semicondutores, componentes essenciais para a inteligência artificial. O índice de semicondutores da Filadélfia caiu 12,2%. Entre os destaques de baixa estiveram a Nvidia, com recuo de 9,3%, e a AMD, que despencou 17,3%.
Reflexos nos mercados asiáticos
A onda de vendas atingiu os mercados da Ásia na sexta-feira (6). Na Coreia do Sul, o índice Kospi recuou 6,02%, fechando aos 5.059,69 pontos, após registrar uma queda superior a 8% durante o pregão. O movimento levou a bolsa sul-coreana a acionar um circuit breaker, interrompendo as negociações por 20 minutos a partir das 9h03 no horário local. No Japão, o Nikkei caiu 5,96%, encerrando aos 57.434,77 pontos.
Outros mercados asiáticos também fecharam em baixa:
- Taiwan (Taiex): baixa de 4,51%, aos 39.701 pontos
- Cingapura (Straits Times): queda de 2,17%, aos 5.181 pontos
- Hong Kong (Hang Seng): recuo de 1,27%, aos 24.481 pontos
- China (Xangai): baixa de 1,10%, aos 3.649 pontos
- China (CSI 300): queda de 1,44%, aos 4.054 pontos
- Austrália (S&P/ASX 200): recuo de 0,49%, aos 9.020 pontos
Grandes fabricantes de chips e tecnologia da região também recuaram, como a SK Hynix (queda de 10,4%), Samsung Electronics (recuo de 6,4%), SoftBank (perda de cerca de 11%) e TSMC (baixa de 4,7%).
Eleições nos EUA e debate sobre centros de dados
A vitória dos democratas nas eleições de meio de mandato realizadas em 3 de novembro intensificou o temor de que o setor enfrente novas barreiras regulatórias para a construção de centros de dados. Essas instalações são fundamentais para o armazenamento e processamento de dados da inteligência artificial, mas enfrentam resistência de comunidades locais devido ao alto consumo de energia e água.
Celso Camilo, doutor em inteligência artificial e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), avalia que a eleição funcionou como um gatilho para um mercado que já demonstrava fragilidade. Segundo o especialista, a vitória democrata aumentou as preocupações com possíveis restrições a licenças, incentivos fiscais e projetos, embora mudanças legislativas relevantes levem tempo e o presidente mantenha o poder de veto. Para ele, os riscos imediatos concentram-se nos estados, por meio de decisões de licenciamento e moratórias.
Investimentos bilionários e cobrança por resultados
A pressão sobre os papéis também reflete o ritmo acelerado de gastos das empresas de tecnologia. Dados da agência Reuters indicam que Amazon, Meta, Microsoft e Alphabet elevaram conjuntamente os investimentos em infraestrutura de US$ 113 bilhões para US$ 207 bilhões em um ano, com projeções de alcançar US$ 232 bilhões no trimestre seguinte e até US$ 740 bilhões em 2026. No terceiro trimestre, a Amazon investiu US$ 75,9 bilhões, a Alphabet destinou mais de US$ 50 bilhões, a Microsoft aplicou US$ 45,2 bilhões e a Meta registrou gastos de US$ 35 bilhões.
Um levantamento envolvendo cinco companhias (Microsoft, Alphabet, Amazon, Meta e Oracle) aponta que, nos primeiros nove meses de 2026, os investimentos somaram US$ 556,9 bilhões, superando os US$ 542,9 bilhões gerados por suas operações. Com isso, o fluxo de caixa livre agregado do grupo passou de um saldo positivo de US$ 143,5 bilhões nos primeiros nove meses de 2025 para um resultado negativo de US$ 14 bilhões no mesmo período de 2026.
Para financiar a expansão, empresas como a Microsoft recorreram à emissão de dívidas, captando US$ 25 bilhões em títulos. Especialistas apontam que os investidores agora exigem retorno financeiro palpável sobre o capital aplicado.
"O mercado continua confiante na demanda por inteligência artificial, como mostram os resultados crescentes da área de computação em nuvem. Mas os investidores passaram a cobrar mais das empresas: não basta anunciar grandes investimentos em IA, é preciso mostrar que eles estão se transformando em receita e, principalmente, em geração de caixa", afirma Nickolas Lobo, especialista de investimentos da Nomad.
Apesar da volatilidade, analistas ponderam que o cenário não caracteriza necessariamente uma bolha na tecnologia em si. "A tecnologia é real, já está sendo utilizada e tem capacidade de transformar diversos setores da economia. O que considero exagerado são algumas expectativas de valorização", conclui Celso Camilo.
Fonte: https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/11/06/acoes-ia-globais.ghtml
