Turbulência no mercado de títulos de dívida dos EUA
Sinais de alerta estão piscando no mercado mais crucial do planeta: o de títulos de dívida dos Estados Unidos. Essa instabilidade é provocada por uma combinação de fatores distintos, porém interligados. A escalada do conflito entre os EUA e o Irã tem elevado os gastos com defesa e impulsionado os preços do petróleo, da gasolina, do diesel e do combustível de aviação. Esse aumento nos custos de energia intensifica as preocupações inflacionárias em um mercado de títulos já pressionado por uma dívida nacional americana de US$ 40 trilhões.
O rendimento dos Treasuries de 10 anos, que reflete o custo para o governo americano tomar empréstimos, atingiu na última quarta-feira seu maior nível em quase três anos. Esse estresse financeiro encarece hipotecas para consumidores, empréstimos para empresas e o pagamento das contas de Washington. O perigo é a criação de um ciclo vicioso onde a intensificação da guerra assusta o mercado, desacelerando a economia e as ações. Hardika Singh, estrategista econômica da Fundstrat, observa que não há sinais de solução a curto prazo para a inflação, a guerra ou o déficit.
Um fenômeno econômico global
Embora as ações dominem as manchetes, o verdadeiro poder reside no mercado de títulos, e investidores globais estão demonstrando sua força. Na Alemanha, os rendimentos dos títulos de 10 anos alcançaram níveis não vistos desde 2011. No Reino Unido, os títulos de 30 anos atingiram o maior patamar desde 1998. Até o Japão, que enfrenta inflação após décadas de estagnação, viu seu título de 10 anos ultrapassar 3% de rendimento pela primeira vez desde 1996.
Rendimentos mais altos nos títulos tornam-se alternativas atraentes às ações, tradicionalmente consideradas de maior risco. Com os títulos americanos de 10 anos aproximando-se de 5%, torna-se difícil justificar a compra de ações de tecnologia com avaliações elevadas. O conflito com o Irã, iniciado por Donald Trump em fevereiro e previsto para durar semanas, já se estende por seis meses, perturbando o fluxo de energia e forçando a reprecificação de inflação e títulos.
Choque energético e pressão inflacionária
Apesar de alternativas como o escoamento clandestino de petróleo e a redução de importações pela China terem mitigado alguns danos, os impactos são reais. Agosto foi o mês com a gasolina mais cara da história dos EUA, e o diesel disparou 51% desde o início do conflito. Art Hogan, da B. Riley Wealth Management, afirma que a situação é um argumento circular até que haja uma saída crível para a guerra. O mercado agora especula que o Federal Reserve, incluindo Kevin Warsh, pode ser forçado a elevar as taxas de juros para combater a inflação.
O alto custo das guerras eternas
Conflitos geram gastos imprevistos e endividamento adicional. O embate com o Irã custa bilhões em defesa aos EUA, um padrão repetido por Europa, Japão e Coreia do Sul devido a ameaças globais. David Kelly, do JPMorgan Asset Management, define o cenário como uma entrada em 'guerras eternas', que possuem custos altíssimos. Atualmente, os EUA gastaram US$ 931 bilhões em juros líquidos no ano fiscal, superando os US$ 804 bilhões destinados à defesa nacional.
A Peter G. Peterson Foundation estima que os gastos com juros podem superar US$ 16 trilhões na próxima década, o triplo da dívida acumulada pelos americanos em cartões de crédito e financiamentos. Taxas mais altas desaceleram a economia, dificultando a expansão de pequenas e grandes empresas devido ao custo do capital.
Fracasso das intervenções e o limite do crédito
Recentemente, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, tentou intervir dobrando as recompras de títulos. Contudo, a medida falhou rapidamente, com as taxas voltando a subir. Para Hardika Singh, a ação pode ter piorado a situação ao demonstrar a preocupação do governo. David Kelly reforça que a intervenção não resolve o problema estrutural dos déficits: 'Esgotamos o limite do cartão de crédito'. Segundo ele, a única forma de reverter a tendência no mercado de títulos seria através de uma recessão massiva.
