Um levantamento divulgado nesta quarta-feira (22) revela que apenas 24,1% dos médicos — o equivalente a dois em cada dez profissionais — consideram que a disponibilidade de leitos nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) do Sistema Único de Saúde (SUS) é totalmente adequada para os pacientes. O estudo, intitulado “Inquérito Nacional sobre a Força de Trabalho Médica nas UTIs Brasileiras”, foi realizado pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) com o apoio do Conselho Federal de Medicina (CFM).
Em contraste, na rede particular, que inclui hospitais vinculados a planos de saúde, o índice de aprovação da oferta de leitos sobe para 51,4%.
A pesquisa também avaliou a disponibilidade de medicamentos. No SUS, 32,6% dos médicos classificaram o abastecimento de remédios como inadequado ou totalmente inadequado, recebendo notas de 0 a 2. Na rede privada, o percentual foi de 7,8%, índice quatro vezes menor do que o registrado na rede pública.
O estudo contou com a participação de 2.338 profissionais, que atribuíram notas de 0 a 5 a itens fundamentais para o funcionamento das unidades, como infraestrutura, leitos e medicamentos. Os dados mostram que as redes particulares foram melhor avaliadas, com notas negativas nas unidades públicas chegando a ser até quatro vezes superiores às da iniciativa privada. O padrão de maior desaprovação para o SUS repetiu-se em 12 dos 13 aspectos analisados.
Mesmo na faixa de nota máxima (5), o SUS apresentou índices inferiores em diversos quesitos em comparação à rede privada:
- Protocolos de atendimento e conduta: 40,2% (privado) contra 23,1% (SUS);
- Equipe multiprofissional especializada: 39,2% (privado) contra 23,0% (SUS);
- Interconsulta com outras especialidades: 36,3% (privado) contra 15,4% (SUS);
- Interação com equipes de outros setores: 30,7% (privado) contra 14,5% (SUS);
- Protocolos de passagem de plantão: 27,8% (privado) contra 14,5% (SUS);
- Fluxos de gerenciamento de pacientes entre setores do hospital: 26,5% (privado) contra 11,1% (SUS, mais que o dobro de diferença);
- Enfermeiros especializados em terapia intensiva: 25,1% (privado) contra 16,9% (SUS).
Para o presidente da AMIB, Cristiano Franke, os resultados evidenciam uma desigualdade persistente entre os dois sistemas. “A diferença da percepção entre os médicos dos setores público e privado tem origem na capacidade de resposta que as equipes encontram para atender um paciente crítico. Isso envolve leito disponível, mas também remédios em mãos e protocolos bem estabelecidos para cada momento da assistência, entre outros itens. A redução dessa desigualdade estrutural precisa entrar na agenda de prioridades da saúde pública brasileira”, declarou.
A AMIB planeja apresentar o diagnóstico a gestores públicos, privados e autoridades de fiscalização e controle, solicitando que as recomendações do inquérito sejam atendidas. “Não basta fazermos apenas o diagnóstico da diferença de condições entre as UTIs públicas e privadas brasileiras, é necessário traçar estratégias para agir e modificar esse cenário. O inquérito aponta claramente um caminho: investir em modernização das unidades públicas, com acesso equitativo a tecnologias de monitoramento e suporte à vida. Precisamos reduzir essa distância sem esperar que o paciente pague o preço”, afirmou Franke.
De acordo com a entidade, eventuais mudanças decorrentes do estudo teriam impacto direto sobre 43.901 leitos de UTI em todo o país, dos quais 34.927 são destinados a adultos e 8.974 à pediatria e neonatologia.
