Investidores estrangeiros retiraram R$ 8,86 bilhões da Bolsa brasileira em quatro pregões consecutivos, entre os dias 22 e 27 de outubro. O movimento representou a devolução de 44% dos recursos que haviam ingressado no mercado ao longo do mês, embora o saldo acumulado de outubro e do ano ainda se mantivesse positivo.
Em entrevista ao CNN Money, José Cassiolato, estrategista da Victrix Capital, avaliou que o mercado está em busca de um novo patamar de preços para o Ibovespa. Segundo ele, a movimentação recente está diretamente ligada ao resultado das eleições. "Sem dúvida nenhuma, houve uma reação em relação ao resultado das eleições", afirmou.
O estrategista explicou que, com base em análises de regressão da Victrix Capital, a saída de aproximadamente R$ 3 bilhões registrada na segunda-feira deveria ter gerado uma queda de cerca de 1,4% no Ibovespa. No entanto, o impacto nos preços foi consideravelmente maior do que o esperado diante do volume de saída. "Foi um dia bem atípico. O mercado já abriu negociando numa baixa muito grande e a gente viu um desequilíbrio representativo entre a quantidade de vendas e a quantidade de compras", detalhou. Para Cassiolato, o impacto se manifestou no preço e não no volume de saída do investidor estrangeiro.
Pontos-chave para os próximos meses
Cassiolato destacou três momentos decisivos que deverão influenciar o comportamento dos investidores estrangeiros nas próximas semanas:
- Reunião do Copom: Decidirá sobre a taxa de juros, variável que reagiu de forma drástica ao cenário recente, com vencimentos pré-fixados acima de cinco anos pagando 15% ao ano.
- Gestão da política econômica: Diz respeito aos nomes escolhidos para compor a equipe responsável pela política econômica, em especial o equilíbrio entre promessas de campanha voltadas ao social e o compromisso com a trajetória fiscal. "Se o governo fizer uma sinalização mais clara desse compromisso com o fiscal, pode haver uma reversão do fluxo de investidores estrangeiros", afirmou.
- Eleições no Congresso: A eleição dos presidentes do Senado e da Câmara está prevista para o início do próximo ano.
O estrategista ressaltou que esse momento coincide, estatisticamente, com a média histórica de retorno de preços após períodos de queda. "Esses momentos de queda comumente têm uma amplitude muito próxima de 20%, que é onde a gente está gravitando nesse momento. E a média de retorno para o preço anterior gira em torno de quatro meses", explicou.
Aversão ao risco se espalha além da Bolsa
O movimento de aversão ao risco não ficou restrito ao mercado de ações. Cassiolato apontou que a renda fixa local, os bonds brasileiros negociados no exterior e as ADRs — instrumentos que permitem a investidores estrangeiros acessar empresas brasileiras por meio dos Estados Unidos — também sofreram desvalorização expressiva.
"Todo esse universo ligado ao Brasil viu um aumento muito grande na perspectiva de risco e acumulou um prêmio bem representativo", disse. Apesar do cenário de incerteza, o estrategista lembrou que o Brasil possui atrativos estruturais aos olhos do investidor internacional, especialmente por sua exposição a commodities e ao setor financeiro, que conferem ao país um perfil complementar dentro de portfólios globais diversificados. Para Cassiolato, caso o governo consiga transmitir credibilidade em relação à política fiscal, a atratividade das ações brasileiras poderá aumentar ainda mais nos próximos meses.
