As taxas dos contratos de juros futuros (DIs) encerraram a sexta-feira (30) em alta, consolidando ganhos acumulados superiores a 250 pontos-base em determinados vencimentos ao longo da semana pós-eleição. O movimento reflete o realinhamento de posições decorrente da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o receio do mercado em relação à condução da política fiscal da próxima administração.
No fechamento da tarde, a taxa do DI com vencimento em janeiro de 2028 atingiu 14,5%, registrando avanço de 13 pontos-base sobre o ajuste prévio de 14,366%. Já o contrato para janeiro de 2035 fechou a 15,33%, com acréscimo de 10 pontos-base em comparação aos 15,234% anteriores. No balanço acumulado desde o segundo turno, os DIs para 2028 e 2035 subiram, respectivamente, 164 e 259 pontos-base. O resultado veio na sequência da vitória de Lula sobre o senador Flávio Bolsonaro no último domingo, cenário que surpreendeu a Faria Lima.
Investidores mantêm o foco nas futuras diretrizes para as contas públicas e aguardam definições sobre os nomes que liderarão pastas estratégicas a partir de 2027, a começar pelo Ministério da Fazenda. A necessidade de ajuste fiscal é apontada pelo mercado como pauta indispensável para conter a inflação e viabilizar a redução sustentável dos juros. Na quinta-feira, dados divulgados pelo Banco Central apontaram que o setor público consolidado acumulou déficit nominal de R$ 113,0 bilhões em setembro, já considerando o pagamento de juros da dívida. No acumulado de 12 meses até setembro, o déficit nominal chegou a R$ 1,275 trilhão, equivalente a 9,51% do Produto Interno Bruto (PIB).
Em relatório divulgado nesta sexta-feira, o diretor da consultoria Wagner Investimentos, José Faria Júnior, avaliou que o problema fiscal é grave e exige enfrentamento para evitar um desarranjo macroeconômico, que classificou como o principal temor do setor. O especialista também chamou atenção para o elevado endividamento das famílias e das empresas.
Ainda na agenda econômica, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informou pela manhã que a taxa de desemprego no Brasil recuou para 5,2% no terceiro trimestre, atingindo o menor patamar para o período desde o início da série histórica em 2012, em linha com as projeções de analistas. O rendimento real habitual do trabalhador manteve-se estável frente ao trimestre anterior, situando-se em R$ 3.790, o que representa um crescimento de 3,6% na base anual.
Para o economista do Banco Daycoval, António Ricciardi, o indicador sinaliza que o mercado de trabalho e o desemprego devem passar por uma desaceleração gradual ao longo do ano, mantendo a expectativa de uma taxa terminal de desemprego em 5,2%.
Na próxima quarta-feira, o Banco Central divulgará sua primeira decisão sobre a taxa básica de juros após o segundo turno presidencial, sopesando tanto os indicadores recentes da economia real quanto as alterações cambiais e de expectativas observadas desde o pleito. Durante a semana posterior ao segundo turno, a cotação do dólar avançou mais de 40 centavos de real.
As apreensões com a estabilidade fiscal no governo Lula direcionaram grande parte das projeções do mercado para a manutenção da Selic em 13,75% ao ano. Rafael Sueishi, head de renda fixa da Manchester Investimentos, pontuou que, antes do pleito, os preços embutiam maior probabilidade de continuidade no ciclo de corte de juros, cenário que se alterou no pós-segundo turno para uma expectativa de manutenção na próxima reunião do Copom. Segundo Sueishi, a eleição não alterou de imediato os fundamentos da inflação ou da atividade, mas modificou a percepção de risco sobre a trajetória das contas públicas, o câmbio e a curva de juros.
No cenário internacional, que exerceu menor influência sobre as taxas locais nesta sexta-feira, os rendimentos dos títulos do Tesouro norte-americano (Treasuries) registraram quedas firmes em meio a um movimento global de venda de ações de tecnologia e migração para ativos de menor risco. Por volta das 16h42, o retorno do Treasury de dez anos recuava 6 pontos-base, cotado a 4,925%.
