Investigações e monitoramentos recentes apontam que criminosos estão utilizando perfis e publicações na rede social TikTok para promover a comercialização de conteúdos de abuso sexual infantil. A divulgação ocorre de maneira dissimulada nos comentários das postagens, onde são empregados códigos específicos com o intuito de burlar os mecanismos de fiscalização da plataforma e direcionar os usuários interessados para o aplicativo Telegram, local onde o material ilícito é efetivamente vendido.
O monitoramento acompanhou mais de 30 perfis na plataforma por semanas, identificando que o esquema utiliza vídeos variados — incluindo conteúdos sem relação aparente, gravações com crianças ou simulações geradas por inteligência artificial — para atrair o público. Nos espaços de comentários, os criminosos e até mesmo potenciais compradores utilizam códigos para interagir de forma velada. Mais de 35 links vinculados a essa prática foram localizados.
No Telegram, o material é comercializado em pacotes contendo fotos e vídeos, com preços que podem variar e ofertas a partir de R$ 10, valores reduzidos devido à concorrência entre os vendedores. Os pagamentos são realizados por meio de criptomoedas ou PIX. A Polícia Federal alerta que, embora os criminosos acreditem na impunidade ao utilizar contas de terceiros — como laranjas ou ex-namoradas —, as transferências via PIX deixam rastros fundamentais para investigações, e as instituições financeiras costumam bloquear transações atípicas.
A venda ocorre por meio de conversas privadas, interações com robôs (bots) ou através de "miniapps", páginas desenvolvidas em JavaScript dentro do próprio Telegram que simulam sites sem exigir que o usuário saia do aplicativo. Antes de concluir as transações, os criminosos frequentemente enviam amostras gratuitas ou vídeos autodestrutivos para ganhar a confiança dos compradores e incentivar o compartilhamento de novos links.
Especialistas e representantes de órgãos de proteção reforçam que a legislação brasileira pune toda a cadeia envolvida. Recentemente, em 6 de agosto de 2026, novas regras sancionadas endureceram as penas para a produção, venda, aquisição ou posse de materiais de violência sexual contra menores, prevendo reclusão de até 10 anos, além de abranger solicitações feitas em ambientes digitais.
Procuradas, as plataformas se manifestaram sobre o caso:
- Telegram: Afirmou que proíbe expressamente a distribuição desse tipo de conteúdo, relatando a remoção de mais de 339 mil grupos e canais no ano de 2026 e o uso de moderação automatizada por hashes e denúncias.
- TikTok: Declarou que remove publicações rapidamente, bane contas envolvidas e utiliza tecnologia de ponta para fiscalização, reportando os casos ao Centro Nacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas (NCMEC).
- Meta: Indicou que a empresa emprega grandes esforços e investimentos em tecnologia para detectar violações às suas regras em outras plataformas, como o Instagram, cujos filtros foram apontados por fontes como mais rígidos em relação a esse tipo de termo.
Levantamentos da SaferNet Brasil e dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública indicam um crescimento contínuo nos registros de produção, posse e distribuição de material de abuso infantil no país, ressaltando o papel das redes sociais como portas de entrada para o aliciamento de crianças e jovens.
