A condução acelerada do processo de impeachment de Santiago Peña e a rápida posse de Pedro Alliana como novo chefe do executivo do Paraguai tendem a provocar mais instabilidade do que a normalização da crise no país vizinho. A avaliação foi feita por Flávia Loss de Araujo, professora de Relações Internacional do Instituto Mauá, em entrevista ao programa Hora H.
Para a especialista, a velocidade dos acontecimentos — que inclui um processo de impeachment e um pedido de prisão em menos de 48 horas — causa estranhamento quando observada sob a perspectiva brasileira. “Esse impeachment tão rápido, esse pedido de prisão tão rápido, também não passam confiança”, declarou a professora, ao caracterizar o cenário como uma profunda crise de confiança institucional.
Crise econômica e política
Segundo a análise da especialista, a crise paraguaia possui raízes tanto na economia quanto na política. O estopim envolve um dos maiores bancos do país, o Ueno Bank, no qual Santiago Peña era sócio até o ano passado.
As autoridades locais investigam a extensão das relações de Peña com a instituição financeira. O ponto central do escândalo aponta que o banco recebia fundos públicos e os repassava para os grupos proprietários e empresas controladoras. Flávia Loss de Araujo também apontou falhas nos órgãos reguladores e criticou a demora do Banco Central paraguaio em adotar providências diante da situação.
Falta de transparência e celeridade constitucional
A professora destacou que a Constituição do Paraguai viabiliza procedimentos dessa natureza de maneira extremamente célere, sem estipular um limite de tempo fixo, o que difere do modelo brasileiro. Como precedente histórico, ela mencionou o impeachment relâmpago do ex-presidente Fernando Lugo em 2012, realizado da noite para o dia. No caso atual, o processo contra Peña levou ao menos dois dias.
- O processo acelerado busca teoricamente a normalidade política, mas gera instabilidade e falha em responder às demandas da população, segundo a especialista.
- A estabilidade futura dependerá da reação do mercado financeiro e da liberação, autorizada pelo Banco Central paraguaio, de recursos congelados para pessoas e empresas.
Pedido de prisão e pressão da oposição
Sobre o pedido de prisão direcionado a Santiago Peña, a professora classificou o episódio como um desdobramento gravíssimo, ressaltando que os impactos reais dependerão do avanço das investigações. Ela também pontuou a existência de intensa pressão por parte da oposição, que atuou como uma das principais denunciantes do escândalo, para acelerar os desdobramentos do caso.
