Mais de 100 dias após o duplo terremoto que atingiu a Venezuela em 24 de junho, dezenas de famílias continuam mobilizadas na busca por parentes desaparecidos nas áreas afetadas, especialmente no estado de La Guaira. O último balanço oficial, divulgado em 24 de agosto, registrou 6.509 vítimas fatais, enquanto estimativas independentes e internacionais apontam que o número potencial de mortes pode situar-se entre 10 mil e 20 mil.
Moradores e familiares relatam falta de informações detalhadas por parte do governo, que não respondeu aos questionamentos sobre um número oficial de desaparecidos. Diante da lacuna, comunidades locais e parentes passaram a realizar contagens próprias e a organizar redes de apoio para fornecer água, gelo e eletrólitos aos bombeiros e militares que atuam na remoção de escombros.
Entre os casos em aberto está o de Jhoniel José Morales, de 11 anos, cujo desaparecimento é investigado pela própria família. Parentes relatam que imagens de segurança registraram o menino descendo as escadas minutos antes dos tremores. Após exaustivas buscas em hospitais, abrigos e necrotérios, e a descoberta de um segundo vídeo indicando que a criança havia deixado o prédio, a família ampliou as diligências por ruas, centros de acolhimento e cemitérios.
No conjunto habitacional Residencias Caribe, outros moradores enfrentam o mesmo drama. Nayibe Geromes busca pela mãe, Leida Mata, enquanto Angie Valentina Sojo Andarcia tenta localizar o marido, cuja ligação telefônica caiu no momento exato do impacto dos sismos. Familiares apontam dificuldades na obtenção de respostas e na realização de exames de DNA, além de relatarem o desconhecimento de canais oficiais eficientes para o registro de desaparecimentos.
A Defensoria do Povo informou, por meio de comunicado, que mantém diversos canais abertos para o recebimento de denúncias, orientação jurídica e acompanhamento de violações de direitos fundamentais, tendo atuado em mais de 100 casos e acolhido denúncias em centros provisórios. Contudo, órgãos oficiais como a Procuradoria-Geral da República, o Ministério do Poder Popular para Relações Interiores, Justiça e Paz, o Senamecf e a polícia científica não detalharam os protocolos aplicados aos desaparecidos.
Por outro lado, organizações não governamentais como a Cofavic denunciam falhas graves nos protocolos internacionais de identificação e manejo de corpos. Segundo Ronnie Boquier, coordenador da área jurídica da entidade, foram relatados problemas críticos na cadeia de custódia em um necrotério improvisado em La Guaira, incluindo processos de reconhecimento visual por meio de fotografias em avançado estado de decomposição sem suporte psicológico, gerando temores de entregas equivocadas de corpos.
