O parlamento do Egito deve realizar uma votação para decidir se autoriza ou não as Forças Armadas a colaborarem na defesa da Arábia Saudita contra os ataques perpetrados pelos Houthis do Iêmen, caso Riad solicite tal assistência. A eventual aprovação pode aproximar o país mais populoso do mundo árabe de uma participação militar direta nos confrontos ampliados após a ofensiva aérea conduzida pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã em fevereiro.
A solicitação foi feita pelo presidente Abdel Fattah al-Sisi durante um discurso. Na ocasião, o mandatário declarou que o Egito jamais esquecerá os irmãos no Golfo e garantiu aos líderes sauditas que o Cairo adotará todas as medidas necessárias para protegê-los. A posição representa uma mudança em relação ao tom cauteloso que o governo egípcio mantinha desde o início das hostilidades com o Irã, período em que evitou comprometer-se abertamente com combates diretos, apesar de manter laços estreitos na estrutura de segurança liderada pelos EUA.
Motivações econômicas e de segurança
Especialistas apontam que a estabilidade econômica do Egito está profundamente ligada aos produtores de petróleo do Golfo. Remessas enviadas por trabalhadores egípcios na região servem como fonte vital de divisas para famílias que enfrentam inflação de dois dígitos, impulsionada pela alta nos preços de alimentos e combustíveis. Além disso, a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e outros aliados financeiros forneceram dezenas de bilhões de dólares em ajuda, investimentos e depósitos no banco central desde 2013. Dados do Banco Central egípcio apontam que os sauditas mantêm um depósito de US$ 5,3 bilhões na instituição, com vencimento no mês atual, além de US$ 267 milhões em juros.
No aspecto de segurança, o analista H. A. Hellyer, do think tank Royal United Services Institute, destacou que questões econômicas e de defesa formam uma única pauta para o governo. O temor aumentou em julho, quando um ataque com drones atingiu duas embarcações de gás no porto de Damietta, no Mediterrâneo, mostrando que o Egito não ficaria totalmente isolado. Sherif Aref, pesquisador político e jornalista egípcio, ressaltou que a segurança da Arábia Saudita é tratada como dimensão da segurança nacional do Egito, especialmente devido ao interesse mútuo na navegação pelo Mar Vermelho e pela proteção das rotas que alimentam a arrecadação bilionária do Canal de Suez.
Capacidade e possíveis tipos de intervenção
O Egito conta com forças armadas consideradas expressivas no mundo árabe, compostas por centenas de milhares de militares e equipamentos diversificados, incluindo caças F-16 norte-americanos, Rafales franceses e MiG-29 russos. Washington destina cerca de US$ 1,3 bilhão anuais em ajuda militar ao Cairo, valor que teve exigências de direitos humanos dispensadas recentemente devido ao papel desempenhado pelo país durante o conflito com o Irã. Historicamente, o país atuou em campanhas de contrainsurgência no Sinai, enviou apoio à coalizão liderada pela Arábia Saudita no Iêmen em 2015 e realizou ataques na Líbia, embora não envie tropas terrestres em larga escala desde a Guerra do Golfo, em 1991.
Segundo Samir Ragheb, oficial da reserva e diretor da Fundação Árabe para o Desenvolvimento e Estudos Estratégicos, um possível envio de tropas não deve abranger o território iemenita. As ações mais prováveis envolvem a atuação de defesa aérea para interceptar mísseis e drones, além de operações navais para proteger a costa saudita e embarcações. Por sua vez, Andreas Krieg, professor de estudos de segurança no King’s College de Londres, pondera que a entrada de forças convencionais árabes não resolverá o problema dos Houthis de forma imediata, servindo para fortalecer a resiliência saudita, melhorar o controle do Mar Vermelho e elevar o custo político dos ataques.
