O crescimento de Flávio Bolsonaro (PL) em municípios da Amazônia brasileira gerou preocupação entre ambientalistas e lideranças indígenas, que manifestam receio quanto ao possível retorno do garimpo ilegal e à fragilização das diretrizes de preservação territorial. A repercussão foi tema de uma reportagem publicada nesta sexta-feira, 23, pelo jornal britânico The Guardian, que apontou a influência eleitoral do senador em Roraima.
No estado, a perspectiva de reabertura da mineração tem mobilizado setores da sociedade no contexto do segundo turno das eleições presidenciais, disputado contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no domingo, 25. Em Mucajaí, cidade do interior roraimense, o parlamentar atingiu quase 79% dos votos válidos no primeiro turno, registrando seu índice proporcional mais expressivo no estado, onde obteve vitórias em 14 dos 15 municípios.
A região figurou como um dos principais acessos para garimpeiros clandestinos na Terra Indígena Yanomami no decorrer da gestão de Jair Bolsonaro (2019-2022). Diante do adensamento das fiscalizações e ações de repressão à mineração irregular na administração atual, residentes que sustentavam suas rendas por meio da atividade ilegal passaram a expressar insatisfação com a retração de postos de trabalho.
O veículo britânico conversou com eleitores que veem na candidatura bolsonarista uma alternativa para a reativação da economia da região. A instrutora de direção Rosimari Monteiro, de 38 anos, relacionou parte do aperto financeiro enfrentado em Mucajaí ao cerco aos garimpos e manifestou expectativa de que um eventual triunfo de Flávio possibilite a regulamentação da extração mineral em terras originárias.
"Para nós, ele representa o futuro. Queremos uma luz no fim do túnel. Queremos um futuro melhor para nós e para nossos filhos, que são o futuro de nossa nação", declarou Monteiro ao periódico.
Em agenda pela região amazônica realizada ao longo da semana, o senador assumiu o compromisso de converter os recursos naturais locais em ganhos econômicos para os habitantes. A partir do mês de janeiro, ao menos sete entre os nove estados da Amazônia contarão com governos alinhados ao espectro político do bolsonarismo, ao passo que o Poder Legislativo federal passará a contar com uma bancada fortalecida de parlamentares direitistas avessos a medidas de conservação ambiental e demarcação de terras.
Por outro lado, comunidades originárias encaram o panorama político como um risco direto à preservação de seus povos. Júnior Hekurari, presidente da Associação Urihi Yanomami, declarou ao veículo estrangeiro que o respaldo ao candidato pode acarretar desdobramentos catastróficos para as etnias nativas.
De acordo com o dirigente, habitantes de aldeias relataram o recebimento de ligações telefônicas de garimpeiros após a etapa inicial do pleito, com cobranças pela liberação de pistas de pouso clandestinas visando a retomada das operações ilegais.
"Ao votar 22, os brasileiros estão assinando uma certidão de óbito para os Yanomami e para os indígenas em geral", pontuou o líder Yanomami Júnior Hekurari, de 40 anos, em entrevista ao The Guardian.
