Desde o início do conflito entre Estados Unidos e Irã, o mercado monitora os impactos na cotação do petróleo devido a interrupções na produção e no transporte, com destaque para o Estreito de Ormuz, rota crucial no Oriente Médio. Oito meses depois e após tentativas frustradas de acordos de paz, o petróleo Brent, referência internacional, voltou a superar a marca de US$ 100 por barril na última quinta-feira (1º), mesmo com a retomada do tráfego marítimo.
Estimativas do Goldman Sachs apontam que as exportações do Golfo Pérsico se recuperaram na última semana de setembro, atingindo 23,3 milhões de barris por dia, um volume próximo à média registrada em 2025. Contudo, diversos fatores mantêm os preços elevados no mercado internacional.
Descompasso no refino e estoques reduzidos
Embora o petróleo bruto tenha voltado a circular em volumes comparáveis aos anteriores à guerra, os combustíveis refinados — como diesel, gasolina e querosene de aviação — continuam com exportações abaixo do normal. O conflito afetou refinarias e elevou os riscos logísticos, gerando dificuldades para transformar o petróleo bruto em combustíveis e entregá-los aos consumidores. Felipe Sant'Anna, analista da Axia Investing, destaca a necessidade de separar as etapas de produção, refino, mobilidade e exportação por oleodutos ou navios petroleiros.
Dados da Agência Internacional de Energia (IEA) indicam que os estoques globais de petróleo recuaram 507 milhões de barris desde fevereiro. No mesmo período, países-membros liberaram mais de 300 milhões de barris de reservas de emergência. Com baixos estoques, governos e empresas intensificam compras para formar reservas de segurança, pressionando os preços.
Riscos geopolíticos e demanda sazonal
O mercado ainda precifica o temor de novas interrupções decorrentes de uma escalada militar ou de ataques a instalações, refinarias e embarcações. Segundo Sant'Anna, as incertezas e tensões levam nações a reter petróleo, fazendo com que investidores projetem contratos futuros para cima. Além disso, a aproximação do inverno no Hemisfério Norte tende a ampliar o consumo de energia, gás natural, petróleo e derivados nos Estados Unidos e na Europa.
Para atenuar os reflexos da alta, o governo da Alemanha anunciou reduções em impostos sobre a gasolina e o diesel.
Caminhos para a queda dos preços
De acordo com a analista Maria Carolina Luchesi, da Hike Capital, uma desvalorização consistente da commodity depende de três pilares: a recuperação duradoura das exportações, a retomada da produção paralisada e a normalização do mercado de combustíveis. Projeções da IEA apontam que 5,7 milhões de barris diários de produção fiquem parados, em média, no quarto trimestre, com expectativa de normalização no Oriente Médio apenas no segundo trimestre de 2027.
Na última sexta-feira (2), o petróleo recuou abaixo de US$ 100 após notícias sobre a possível liberação de reservas. A Reuters informou que países da União Europeia discutem liberar 50 milhões de barris de diesel, enquanto membros da IEA avaliam colocar mais 50 milhões de barris de petróleo no mercado.
Enquanto isso, Washington e Teerã mantêm o impasse após meses de guerra e negociações sem sucesso. As divergências centrais envolvem o programa nuclear iraniano, sanções econômicas americanas e a garantia de livre navegação no Estreito de Ormuz.
