Após ser reeleito no domingo (25), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrentará o desafio de ajustar o Orçamento de 2027 para acomodar o pacote de medidas e benefícios promovido por seu governo durante o período eleitoral.
O Ministério do Planejamento e Orçamento aponta que será necessário realocar aproximadamente R$ 20 bilhões do Orçamento de 2027 para custear as ações divulgadas nas últimas semanas. De acordo com a pasta, o valor representa pouco mais de 1% das despesas primárias submetidas ao limite de gastos do próximo ano.
Entre as iniciativas do Executivo estão o reajuste do Bolsa Família e a terceira edição do programa Desenrola, cujos impactos financeiros são calculados em R$ 22,7 bilhões e R$ 5 bilhões, respectivamente. O planejamento também precisa contemplar ajustes na receita devido ao término das bets, que fará a União deixar de arrecadar R$ 5,3 bilhões em 2027.
Além das despesas já contratadas, a gestão de Lula deverá absorver os custos de propostas apresentadas por ele próprio na campanha eleitoral. Na reta final da disputa, o presidente prometeu a expansão do programa Pé-de-Meia para universitários e a criação do Pix MEI, voltado a transferências de até R$ 5 mil para microempreendedores individuais. Antes do segundo turno, o governo também encaminhou uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para instituir transporte público gratuito aos fins de semana, financiando a medida com o direcionamento de 26,8% dos recursos reservados a emendas parlamentares, o que equivale a R$ 2027 em R$ 12 bilhões.
Estratégia fiscal e reações do mercado
Durante a campanha, o presidente indicou a manutenção da estratégia fiscal vigente. A meta estabelecida para 2027 prevê um superávit de 0,5% do PIB, correspondente a R$ 73,2 bilhões. Ao todo, os benefícios anunciados por Lula na tentativa de reeleição mobilizaram cerca de R$ 298,4 bilhões em 2026, somando crédito, renúncia fiscal e impacto em despesas primárias. A equipe econômica assegura que a meta fiscal para 2027 permanece mantida apesar dos custos.
Especialistas avaliam o cenário com cautela. Gabriel Leal de Barros, economista-chefe da ARX e ex-diretor da IFI, afirmou ao CNN Money que o ponto de partida para o reequilíbrio das contas é desafiador e que medidas que aumentem gastos ou reduzam receitas pioram a consolidação fiscal necessária. Por sua vez, o especialista em contas públicas Murilo Viana defende a adoção de ajustes de médio prazo para evitar uma desaceleração econômica e sugere alterações em regras de benefícios semelhantes às realizadas pela gestão atual, como mudanças no abono salarial do PIS/Pasep e no BPC. Viana ressalta, contudo, que o governo enfrentará dificuldades com a nova composição do Congresso, visto que o PL elegeu a maior bancada na Câmara e no Senado.
