O modelo de logística reversa de embalagens adotado pelo agronegócio brasileiro é apontado como referência potencial para impulsionar a reciclagem de resíduos sólidos nos centros urbanos do país. Desde 2002, o setor agrícola já direcionou corretamente mais de 900 mil toneladas de embalagens, enquanto o cenário urbano ainda lida com desafios na coleta seletiva, na destinação dos materiais e na sustentabilidade financeira das operações.
Para Renato Paquet, CEO e fundador da Polen — entidade gestora de logística reversa de embalagens —, o sucesso do campo reside na clareza das atribuições de cada elo da cadeia e na existência de uma estrutura econômica autossustentável. Em entrevista à CNN Brasil, o executivo declarou: “Quando você tem regra clara, papel definido e uma economia que se sustententa, o resultado aparece”.
No setor agrícola, as normas definem com precisão as obrigações de fabricantes, revendas, agricultores e do poder público. Enquanto o produtor devolve as embalagens após o uso e as revendas realizam o recebimento e armazenamento, cabe à indústria a destinação adequada e ao poder público a fiscalização. Segundo Paquet, aproximadamente 70% dos custos da operação agrícola são financiados pelo próprio sistema por meio da reciclagem, diminuindo a dependência de aportes das empresas fabricantes.
Gargalos na coleta seletiva e na destinação urbana
O Brasil produz anualmente mais de 80 milhões de toneladas de resíduos e recicla menos de 9% do lixo gerado nas cidades. Desse total reaproveitado, perto de um terço vem da coleta pública, ao passo que o restante depende do trabalho dos catadores. Entre os principais entraves estão:
- Falta de coleta seletiva: cerca de 1.500 municípios brasileiros não oferecem o serviço, resultando na mistura de materiais recicláveis ao lixo comum, o que encarece a triagem e dificulta o reaproveitamento.
- Destinação inadequada: cerca de 40% dos resíduos urbanos vão para lixões ou recebem fins irregulares.
“Enquanto o resíduo do campo tem destino certo, boa parte das cidades ainda não tem nem para onde mandar”, pontuou Paquet.
Para tornar a reciclagem urbana viável economicamente, o executivo defende a criação de demanda por materiais reciclados, destacando o decreto federal voltado à economia circular do plástico. A norma estabelece metas para o uso de conteúdo reciclado em embalagens, o que estimula a indústria a adquirir tais insumos e valoriza os resíduos. Paquet também ressalta a importância de investir em infraestrutura física — como centros de triagem e pontos de recebimento — e em tecnologia para assegurar a rastreabilidade digital e a remuneração correta dos catadores.
Tributação e créditos de logística reversa
Outro obstáculo destacado é a incidência de impostos sobre materiais reciclados, que podem encarecer o insumo em comparação à matéria-prima virgem. Nesse sentido, a PEC 34, conhecida como PEC da Reciclagem, é citada como uma alternativa para abrandar a carga tributária e elevar a competitividade do setor.
O mecanismo de créditos de logística reversa também desempenha papel central. Ele possibilita que companhias financiem a recuperação e a reciclagem de volumes equivalentes quando não conseguem recolher fisicamente suas próprias embalagens pós-consumo. Em troca, obtêm certificados fundamentados em documentação fiscal, auditorias independentes e registros oficiais no Sinir (Sistema Nacional de Informações sobre a Gestão dos Resíduos Sólidos), garantindo a comprovação legal das metas.
