O risco-país da Argentina registrou alta nesta semana, ultrapassando a marca de 700 pontos e alcançando o seu patamar mais elevado em cerca de um ano. A volatilidade ocorre em meio a fatores externos, movimentos técnicos do mercado e atenções voltadas para o ano de 2027, que marcará a realização de eleições presidenciais e vencimentos expressivos da dívida em moeda estrangeira do país.
Dados do FMI (Fundo Monetário Internacional) apontam que os compromissos em principal e juros ultrapassam US$ 30 bilhões para o próximo ano, somando obrigações com credores privados e organismos internacionais. O montante, contudo, não representa um problema imediato de quitação, uma vez que a nação dispõe de pouco mais de US$ 50 bilhões em reservas e parte das dívidas poderá ser refinanciada, além de envolver o próprio FMI.
Fatores externos e pressões técnicas
Para Daniel Marcatto, sócio e analista da Exploritas, a alta recente do risco-país é impulsionada em grande parte por fatores externos, como a abertura nas taxas dos títulos norte-americanos e a valorização do dólar, que geram pressão sobre os mercados emergentes. Segundo o analista, o crédito argentino possui um beta elevado, fazendo com que os ativos locais repondam de maneira mais intensa, seja de forma negativa em cenários desfavoráveis ou positiva em melhorias globais.
O período de outubro também historicamente traz impactos sazonais, com fundos dos Estados Unidos realizando o rebalanceamento de carteiras antes de um novo ano fiscal em novembro, embora a janela entre dezembro e abril costume ser mais favorável para títulos emergentes. Além disso, a retomada das remessas de dividendos ao exterior levou empresas argentinas a venderem títulos soberanos para obter caixa, retirando do mercado um importante comprador institucional. Marcatto aponta que mais de US$ 4 bilhões já foram enviados ao exterior nesse processo, com estimativas de que o volume total possa alcançar entre US$ 5 bilhões e US$ 6 bilhões até o final do ano.
Mudança de expectativas econômicas e desafios políticos
Especialistas avaliam que houve uma revisão na forma como os investidores encaram a economia argentina. Fabio Giambiagi, pesquisador argentino do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), avalia que o otimismo anterior do mercado era exagerado. Projeções do REM (Relevamiento de Expectativas de Mercado), do Banco Central argentino, indicavam no início de 2025 um crescimento de cerca de 3,7% para a economia em 2026 e inflação de 15% para este ano. As previsões mais recentes ajustaram o crescimento do PIB para 1,5% em 2026 e a inflação de dezembro para 30%.
Giambiagi também destaca que investidores subestimaram as dificuldades políticas do governo e os reflexos do estilo do presidente Javier Milei na articulação de alianças. Recentemente, durante viagem à Espanha, Milei chamou o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, de "ditador inapresentável", declaração repudiada pelo Ministério das Relações Exteriores da Espanha como "indigna". O pesquisador aponta que a sustentação do programa econômico dependerá da aprovação de reformas no Congresso e que a popularidade de Milei apresentou retração em relação ao início da gestão, o que pode acirrar uma eventual disputa de segundo turno caso a oposição consiga concentrar votos contrários.
Apesar do cenário desafiador e das expectativas menos exuberantes, o país ingressa em 2027 com indicadores diferentes daqueles encontrados no início da administração atual, registrando queda na inflação, melhora no resultado fiscal, ampliação das reservas e avanço na balança comercial.
