A desvalorização do real registrada após o resultado da eleição presidencial brasileira pode impulsionar o turismo no litoral do Brasil durante o próximo verão, atraindo um maior número de visitantes argentinos. Com a alta do dólar, que passou de R$ 4,98 para R$ 5,39 — uma valorização de aproximadamente 8% em relação à moeda brasileira —, os turistas do país vizinho ganharam maior poder de compra ao viajar para o território nacional.
Para as famílias argentinas que utilizam dólares, a mudança cambial representa mais recursos disponíveis para custear alimentação, transporte e lazer durante as férias. O Brasil já ocupa posição de destaque entre os destinos internacionais favoritos dos argentinos, em especial pelas praias localizadas nas regiões Sul e Nordeste, e a nova relação entre as moedas tem potencial para intensificar essa preferência no período de planejamento das viagens de verão.
A vantagem financeira para os estrangeiros concentra-se sobretudo nas despesas cotidianas realizadas durante a estadia. Gastos em restaurantes, passeios locais, transporte e outros serviços cobrados em reais tornam-se proporcionalmente mais acessíveis para quem chega com dólares. No entanto, o impacto pode ser menor sobre passagens aéreas e hospedagem, uma vez que grande parte dos hotéis e pacotes de viagem já havia estabelecido suas tarifas para a alta temporada antes da oscilação cambial. Além disso, a capacidade de transporte representa um obstáculo, pois companhias aéreas e operadoras já programaram a maior parte de suas rotas para o verão, limitando ampliações rápidas na oferta caso a demanda aumente.
Preocupação no setor turístico da Argentina
O cenário gera apreensão entre empresários de regiões argentinas que dependem da movimentação econômica proporcionada pelas férias de verão. A Costa Atlântica do país, que abriga balneários como Mar del Plata e Pinamar, concorre diretamente com destinos brasileiros, assim como áreas voltadas ao turismo de lazer e de natureza.
A escolha dos viajantes, contudo, não se apoia apenas na cotação cambial. Fatores como os preços praticados por hotéis e restaurantes, disponibilidade de voos, opções de transporte e condições de pagamento também influenciam a decisão. Ainda assim, uma queda expressiva do real tende a pesar no orçamento das famílias que avaliam os custos de férias internas na Argentina em comparação a viagens para o exterior.
A incerteza ocorre em um momento em que o setor de turismo argentino já enfrenta dificuldades para restabelecer sua rentabilidade. Representantes do setor apontam que os custos operacionais permanecem elevados, mesmo em períodos de melhora na ocupação dos hotéis.
Daniel Prieto, presidente da Federação Empresarial Hoteleira Gastronômica da República Argentina (Fehgra), avalia que a competitividade do turismo local não deve se sustentar exclusivamente no câmbio. O dirigente defende a diminuição de encargos tributários e trabalhistas, além de ações voltadas ao financiamento de empresas e ao estímulo ao consumo. Entre as propostas da entidade está a compensação parcial de contribuições patronais por meio de tributos sobre o consumo, somada a promoções bancárias e facilidades de parcelamento para viagens nacionais.
Na mesma linha, Aldo Elías, vice-presidente da Associação de Hotéis de Turismo da Argentina (AHT), aponta que o crescimento na taxa de ocupação não tem sido suficiente para refletir positivamente nos resultados financeiros dos estabelecimentos. Segundo ele, o encarecimento de serviços públicos e impostos restringe a margem dos hotéis para praticar preços competitivos frente a alternativas no Brasil, no Chile e no Uruguai.
Perspectivas para a alta temporada
Apesar da inquietação do empresariado argentino, os efeitos concretos da desvalorização do real ainda permanecem incertos. O fluxo principal de reservas para o verão costuma se intensificar a partir de novembro, momento em que será viável mensurar com precisão as escolhas dos turistas.
Outro fator determinante é a estabilidade da nova cotação do dólar até o início da alta temporada. Uma eventual recuperação do real atenuaria a vantagem financeira dos visitantes estrangeiros, ao passo que novas flutuações poderiam modificar os valores dos pacotes turísticos.
Caso a tendência se confirme, o Brasil poderá registrar impactos positivos em hotéis, restaurantes, empresas de transporte e comércios situados nas zonas turísticas. O desfecho dependerá tanto do comportamento das moedas quanto da aptidão dos destinos brasileiros para absorver a demanda e apresentar tarifas competitivas.
