Relatos de cidadãos, grupos de direitos humanos e publicações em redes sociais apontam para uma mudança silenciosa nas táticas de recrutamento militar na Rússia, com o uso crescente de coerção, engano e força para atrair combatentes para a guerra, que já entra em seu quinto ano. As informações foram obtidas pela CNN.
Desde a mobilização em massa de 2022, o governo russo tem utilizado incentivos financeiros para atrair soldados. No entanto, diante do aumento das baixas no front e da queda no número de voluntários, há indícios de que essa estratégia tem sido substituída gradualmente por práticas coercitivas. O Ministério da Defesa da Rússia tem negado as alegações ucranianas sobre uma nova onda de mobilização em massa e classificou como falsos os relatos de mobilização forçada na região de Penza.
Alvos vulneráveis e táticas de coerção
De acordo com relatos recolhidos, os alvos mais frequentes dessas abordagens são homens em situação de vulnerabilidade, como pessoas com problemas de saúde, endividados ou com histórico de alcoolismo. Artem Klyga, advogado militar russo radicado em Berlim, afirmou que esse tipo de incidente tornou-se uma prática cotidiana e que as vítimas muitas vezes não conhecem seus direitos.
A coalizão de advogados "Call to Conscience" relatou um aumento nos casos de recrutamento forçado nos meses de julho e agosto. Entre os episódios relatados à CNN, familiares descreveram casos de parentes abordados por homens à paisana em frente a residências, levados em veículos e induzidos ou forçados a assinar contratos militares sob falsos pretextos ou pressão física e moral.
Bônus financeiros e incentivos regionais
Autoridades regionais na Rússia confirmaram a existência de pagamentos de bônus para quem ajudar a atrair novos recrutas. O governador da região de Riazan, Pavel Malkov, anunciou em agosto o oferecimento de pagamentos financeiros que variam de 50 mil a 300 mil rublos (cerca de 3 mil a 18,5 mil reais) líquidos de impostos por cada militar contratado.
Representantes da organização antiguerra "New Alternative Route" afirmaram que a prática fomenta a atuação de indivíduos comparados a caçadores de recompensas, que abordam qualquer pessoa nas ruas, levam-na a um posto de alistamento e obrigam-na a assinar um contrato militar em troca de dinheiro.
Repercussão e temor de nova mobilização
Enquanto o presidente russo, Vladimir Putin, declarou no início de setembro que as pessoas no país alistam-se voluntariamente — diferenciando o modelo russo do ucraniano —, especialistas apontam que o aumento de táticas coercitivas pode ser tolerado pelas autoridades de alto escalão como solução para a escassez de efetivo.
O temor de uma mobilização silenciosa e gradual tem levado cidadãos a buscarem formas de deixar o país. Organizações de direitos humanos registraram um aumento nas consultas sobre emigração, enquanto jovens russos relatam episódios de pressão em instituições de ensino e postos de alistamento.
Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/russia-recrutamento-forcado-relatos-exclusivos/
