Diante de uma fase de baixa popularidade enfrentada pelo governo e pelo presidente da República, a classe política especulou por meses acerca de uma possível desistência de Lula de concorrer à reeleição. Em conversas reservadas, circulavam boatos de que ele poderia abrir mão da candidatura receando uma derrota no capítulo final de sua trajetória nas urnas.
A desistência não se concretizou. Lula manteve a candidatura por diversos motivos, sendo um deles a preservação da musculatura do Partido dos Trabalhadores (PT). A estratégia surtiu efeito e, apesar de uma onda bolsonarista nas eleições legislativas, o partido manteve suas posições no Congresso Nacional. Na Câmara dos Deputados, a legenda conquistou 70 cadeiras, duas a mais que em 2022, assegurando a segunda maior bancada, atrás apenas do PL, liderado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, que elegeu 121 parlamentares. No Senado, os petistas mantêm nove cadeiras a partir de 2027, subindo da quinta para a segunda posição na composição da casa, também atrás do PL, que tem 29. Nas disputas estaduais, a sigla repetiu o desempenho anterior e elegeu quatro governadores: Bahia, Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte. A avaliação é de que, sem Lula na disputa, o desempenho da legenda teria sido inferior, visto que o presidente atua como um forte cabo eleitoral.
Além de zelar pelo futuro da sigla que fundou, Lula seguiu na disputa, apesar da rejeição da maioria da população ao seu governo, por acreditar firmemente que derrotaria Flávio Bolsonaro. Inicialmente, o presidente avaliou que venceria com facilidade, mas acabou enfrentando uma disputa acirrada, saindo vitorioso por uma margem superior à registrada contra o pai do senador em 2022.
O pleito marcou uma reviravolta histórica: foi a primeira vez, desde o processo de redemocratização, que o candidato que terminou o primeiro turno na segunda colocação logrou a vitória no final. Com isso, Lula amplia seu recorde, conquistando o quarto mandato presidencial pelo voto direto. A incerteza atual reside em como ele gerenciará essa consagração, visto que, desde 2023, conduziu um governo considerado sem rumo, desconectado das demandas populares, sem marcas expressivas e marcado pela chamada fadiga de material. Além disso, o petista deixou de lado a promessa de frente ampla que o favoreceu em 2022.
O cenário resultou na rejeição de quase metade da população ao presidente, que acabou beneficiado pela rejeição ainda maior a Flávio Bolsonaro. O adversário passou dias focado na formação de seu futuro governo e não percebeu a reação adversa. Embora Lula tenha méritos na reviravolta, a virada decorreu menos da coordenação original da campanha e mais da intensa mobilização popular nas ruas e redes sociais contra o retorno da família Bolsonaro ao poder.
Os recados das urnas indicam que Lula precisa abandonar a bolha, ampliar suas alianças e voltar o foco para o chão de fábrica, além de trabalhar pela renovação da esquerda — englobando nomes, ideias, propostas e práticas políticas —, superando uma cartilha ultrapassada que falha em solucionar problemas como criminalidade, custo de vida e o desequilíbrio das contas públicas. Apesar do desgaste, o eleitorado concedeu um novo voto de confiança ao presidente.
